Apesar de superficiais, a comparação de blogs com diários íntimos e a questão sobre blogs serem ou não jornalismo ainda circulam com alguma força. E o mito de que blogs não passam de textos irresponsáveis e sem fundamentação agora inspira até uma equivocada campanha publicitária. De onde vem essas confusões esteriotipadas?
I – A teoria
Conforme discutimos em um artigo anterior (Primo e Smaniotto, 2006), o termo blog tem 3 conotações, o que pode gerar mal-entendidos. O termo “blog” designa não
apenas um texto, mas também um programa e um espaço. Para simplificar esta discussão, apresento a seguir exemplos dos diferentes usos do mesmo termo:
como programa: “Parei de usar o Blogger. Instalei o WordPress”;
- como espaço: “Não encontrei seu blog no Google. Qual o endereço dele?”;
- como texto: “Li ontem o seu blog e gostei do que você escreveu”.
A confusão entre blog/programa e blog/texto é responsável por boa parte dos estereótipos sobre esse fenômeno da cibercultura. Da mesma forma que não se pode dizer que aquilo que se imprime em papel é sempre jornalismo ou sempre superficial, por que impor ao suporte blog apenas um modelo discursivo. Em outras palavras, o uso de um blog/programa não determina que o blog/texto deverá seguir um gênero específico, nem ter esta ou aquela qualidade. Ora, diversos são os gêneros que ele pode assumir (ver Recuero e Herring et al, por exemplo). Como sabemos, um blog/texto pode ser jornalístico, outro pode ser confessional, um terceiro pode trazer poesias, enquanto outro servir de registro de procedimentos organizacionais que se quer compartilhar entre todos os funcionários.
E para se analisar um blog/texto, deve-se atentar apenas para um determinado post (a unidade mínima) ou para todos os posts em um blog/espaço? Ou de todos os posts que um internauta publicou na blogosfera? Essa opção de pesquisa depende do foco do estudo. Trata-se de um desafio esquivalente àquele enfrentado por um pesquisador de um certo poeta. O que deve estudar? Uma determinada poesia, um dos livros, toda a obra?
Por outro lado, não se pode esquecer que blogs/texto (pelo menos os que não desativam a interface de comentários) são criados através de um processo de escrita coletiva. Além dos posts do(s) blogueiros(s), que ocupam o espaço mais privilegiado na interface, os comentários devem ser vistos como parte do blog/texto. Os debates têm um impacto sobre o grupo e inclusive sobre a redação de novos posts.
Tendo em vista essa produção colaborativa, não se pode deixar de reconhecer os blogs como importante espaço de sociabilidade. Portanto, o blog/espaço pode se transformar em um ponto de encontro de um grupo de interagentes. A interação recursiva e o comprometimento dos participantes com o grupo pode resultar na emergência de uma comunidade virtual.
Por outro lado, a leitura de um blog/texto não se vincula necessariamente à visita a um blog/espaço determinado. Hoje, com os leitores de feeds (como Google Reader e Netvibes), pode-se acessar os posts longe do blog/espaço original.
II – O manifesto
É preciso abandonar as definições apressadas e confortáveis do que os blogs são ou deveriam ser.
Um blog não deve ser sério ou engraçado, jornalístico ou escrachado, bem referenciado ou utópico. Os blogueiros definem o foco, o gênero e o tom de seus blogs/texto e negociam essas opções com suas audiências. Enquanto essa produção for interessante e prazerosa, o blog continuará a ser atualizado.
Os blogs são mais do que texto, são espaços de interação. Para além do mero registro informacional, blogs podem ter uma importância relacional, enquanto espaço de sociabilidade e convívio. A própria conversação em um blog/espaço pode ser um fim em si mesmo.
Blogs/texto não são escritos necessariamente para agradar ou ampliar a audiência. Eles podem limitar-se a um exercício de auto-reflexão. Na verdade, a escrita de todo post é um momento de avaliação das perspectivas próprias.
Blogs podem também ter um impacto político ao oferecerem condições para que os fatos que afetam a vida do blogueiro e de sua audiência sejam debatidos e para que notícias da grande mídia não sejam apenas esquecidas.