Não, a comunicação não é viral

19 11 2007

Dois temas que andam hoje muito populares: marketing viral e memes. Contudo, preocupa-me o fato de que tanto um quanto o outro partem de uma visão que aborda a comunicação como mero processo transmissionista. Lava-se tudo o que se sabe sobre subjetividade, discurso, implicações sócio-políticas, condicionamentos dos dispositivos materiais, etc. Por outro lado, o hype em torno das pesquisas sobre aquelas temáticas têm conferido sobrevida à perspectiva de difusão de inovações, muito popular nos anos 60-70, mas que perdeu força em virtude de seu viés funcionalista.

Meme e v�rus conversando

A ressurreição de tal aboradagem alimentou-se da chamada “nova” ciência das redes e das discussões sobre emergência. Barabási, expoente do primeiro grupo, lidera aqueles que não se cansam em comparar processos sociais à disseminação de epidemias. O jornalista Steven Johnson, por sua vez, prefere comparar o comportamento social humano à formação e manutenção de formigueiros e colméias. (Em tempo: utilizo muito esses autores, mas discordo das analogias que utilizam).

Apesar da sedução dessas metáforas, tão didáticas e bonitinhas (!), não podemos esquecer que a transmissão viral é um processo aditivo. Uma pessoa infectada transmite o vírus, que passa para outra, que repassa para um terceiro e assim por diante. Qualquer criança que já brincou de telefone sem fio sabe que a comunicação interpessoal não funciona dessa forma. Mesmo assim, no imaginário da cibercultura, como nos lembra meu amigo Erick Felinto, tudo é traduzido em termos informacionais.

No último congresso da IAMCR, realizado em Paris (ah, Paris!), a pesquisadora Virginia Nightingale fez uma dura crítica ao determinismo biológico que tanto aparece em periódicos, livros e congressos sem encontrar uma maior análise crítica. Ironicamente, ela comenta que a própria idéia de teia (web) nos coloca no mundo dos insetos antes que nos demos conta!

Virginia afirma que a simples inteligência dos insetos é um dos modelos preferidos em pesquisas de inteligência artificial. Contudo, essas explicações biológicas, reduzem a agência humana às respostas intuitivas dos “insetos sociais”. Para ela, o perigo de tais analogias, que naturalizam as relações sociais e descrevem a cibercultura como sendo determinada biologicamente, reside no fato que elas ignoram as estruturas de poder que limitam a expressão e os relacionamentos.

Enquanto você pensa em seu comentário, vou ali fazer um pouquinho de mel com as abelhas companheiras…

PS: Este post se inspira no trabalho que apresentei na Intercom deste ano, onde proponho e utilizo um método para o estudo das relações sociais na blogosfera.


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23 respostas

19 11 2007
Carmencita Mahadevi

“insetos sociais”

Ainda tem muito bug.

De qualquer forma, é bom ver que você está de volta ao trabalho.

19 11 2007
Bruno Galera

Só vou poder comentar depois que terminar teu livro. Estou na metade, procrastinando ad eternum!

19 11 2007
Urubu

o Barabási inventou tudo, desde o pão fatiado até a roda. E o Johnson diluiu.

19 11 2007
Ale Carvalho

estes usos de termos biológicos são do início do século passado…né? Só vai mudando o autor.. as escolas são as mesmas! E Dawkins e suas pílulas deterministas se espalham pelas “ciencias sociais”…

19 11 2007
efeefe

Nos arquivos da lista de discussão da metareciclagem:

(…)

“Arrisco a offtopicar demais, mas acho que é preciso dizer porque penso
haverem poucos conceitos que sejam tão perniciosos como o de meme. Vou
tentar ser sucinto, mesmo porque não tenho palavras suficientes para
descrever o quanto detesto esta pseudo-ciência neo-cartesiana chamada de
‘memética’. Para os pacientes, recomendo a leitura de

http://www.helsinki.fi/science/commens/papers/memetics.pdf

Meme é um conceito que trata a produção de sentidos segundo o modelito
dos “genes egoístas”, ou seja, trata-a com resultante de elementos
discretos de um código, os quais são OU mantidos OU descartados. Pela
memética, descarta-se a idéia de que a produção de sentido é um processo
aberto de conexão entre mentes e coisas através de objetos e idéias,
COMO SÃO OS SIGNOS.

A primeira grave inconconsistência dos memética é que supor que existam
unidades mínimas de sentido, mas não é capaz de apontar nenhuma, porque
não existe unidade mínima de sentido (me apontem um “meme” qualquer que
não seja composto por outras unidades que são compostas por outras, e
assim por diante!). A segunda derrapada é que supõe que esta unidades
tem total independencia do contexto e dos intérpretes (mas me mostrem um
desses ‘memes’ que circulem sem ser alterados e transformados pelas
situações de uso!).”

Stalker, Peirceano más ortodoxo que caixa de Maizena. Na real, todo o papo é interessante:

http://article.gmane.org/gmane.politics.organizations.metareciclagem/9662

20 11 2007
Renato Bressan

Pedindo licença pra falar…

De fato, a comparação entre comunidade humana e colméias é no mínimo intolerante, diria um humanista. Por outro lado, quem o humano pensa que é para se achar um ser “comportamentalmente” superior aos demais animais? (questionaria alguém contrário a uma concepção humanista). Outros diriam, existem metodologias e metodologias de pesquisa, de modo que o que torna a “ciência” interessante é esse embate de pontos de vista.

Para além da dialética e de julgar o post acima – bastante pertinente, por sinal – gostaria de trazer uma questão à tona, a qual tem sido bastante discutida pela mídia. A questão das religiões: (os links abaixam aparentemente tratam de contextos diferentes, mas…)

http://www.economist.com/specialreports/displaystory.cfm?story_id=10015255

http://www.nytimes.com/2007/11/20/science/20tier.html?_r=1&ref=science&oref=slogin

Onde entram os estudos de cibercultura nesse contexto? Até que ponto os argumentos da academia conseguem se afastar da fé, principalmente em se tratando das ciências sociais aplicadas?

Att

20 11 2007
L@uR!nh@

É isso, efeefe! Concordo com vc…

Memes não são retransmissões infinitas de um mesmo núcleo de sentido, ao contrário, é intrínseco ao meme a participação de cada novo interagente – que vai transformando os sentidos e, até mesmo, a própria estrutura básica da informação. Não é?!

Alex, confesso que ainda não li teu artigo da Intercom, mas quero ler… E, esse post ficou maravilhoso: se o que existe não é consistente pra explicar as relações, deve ser urgente o ‘colocar o dedo na ferida’… Cada vez mais!!

20 11 2007
Virulancias na Rede « Risquinhos de Giz

[...] Dois temas que andam hoje muito populares: marketing viral e memes. Contudo, preocupa-me o fato de q…“. [...]

20 11 2007
Pase

Bingo. Acho que uma vez falei com a Raquel (uma das pessoas que saca bem isso), o conceito de meme pra biologia tu já precisa olhar com calma, ainda mais isso da comunicação. Maledetto o magrão que achou bonito escrever meme e não falar “moda de Internet”.
Já vi aplicações medonhas pra idéia de meme, quando na verdade era porque duas pessoas em lugares diferentes liam as mesmas coisas. Vi a explicação e imaginei o Homer Simpson falando um grande d´oh.
Uma vez perguntaram pra mim o que era meme. Eu respondi “queres o significado real ou a modinha?” :P
Fora que o pensamento de base do Dawkins é base p. outras idéias dele.
abraços
PS) Lazlo-Barabási parece nome de jogador de algum time do Campeonato Espanhol, tipo Getafe ou La Coruña, hehehe

20 11 2007
Camila

ALEX, tu estarás em Salavdor palestrando amanhã? Soube e quero ir!!

20 11 2007
Marcia

e tá bom o acarajezinho de mel? :)

20 11 2007
alexprimo

Urubu, este blog foi criado pelo Barabási. Eu apenas aluguei o domínio.

Ale, realmente a teoria do Dawkins é divertida. Pena que que não se sustenta!

Felipe (efeefe), valeu pelo link. Muito útil mesmo.

Renato, dizer que o cérebro humano é mais complexo que de uma abelha, e que nossas relações políticas são mais complexas que o trabalho instintivo das formigas é uma nova forma de humanismo?????

Camila, espero então você na palestra nesta quarta!

Laura e Pase, acho muito legal o processo que se chama de meme em blogs. Contudo, o determinismo biológico da teoria das memes me parece realmente muito reducionista.

21 11 2007
Gisele

Li e reli. Fiquei em dúvida sobre a tua opnião em alguns pontos. Dúvidas do tipo “mas porque você afirma isso?”, provavelmente porque me falta algum intertexto por aí.
Me explica na orientação, ok?

21 11 2007
Renato Bressan

Oi Alex,

Respondendo sua pergunta com outra… por que não seria uma nova forma de humanismo, defender que nossas relações são mais complexas que a dos outros animais só porque, aparentemente, “criamos” coisas, “modificamos” o ambiente, entre outros?

Agora, se você me perguntar qual a diferença de humanismo para anti-humanismo, se me pedir para conceituar o que é novo e para medir o nível de complexidade de alguma coisa, talvez seja necessário um outro espaço…

Em relação ao que você chama de determinismo biológico e sua estratégia reducionista, sem dúvida, após lermos Jonhson saímos com uma impressão de que “somos todos parte do mesmo formigueiro” e que nossas ações, coletivas, são guiadas por uma quase kantiana “vontade do bem”, sem hierarquias ou subjetividades que interfiram nesse processo construtivista. Você me perguntaria: não seria Jonhson, nesse sentido, um outro humanista?

O fato que particularmente me interessa é tentar medir até que ponto o discurso daqueles que estudam cibercultura não se assemelha ao religioso -aquela velha discussão da diferença entre ciência e religião.

Por exemplo:
- dizer que o ciberespaço se tornou uma esfera pública habermasiana;
- defender que a revolução marxista vai vir pelo imaterial;
- além dos “estudos” que se tem feito sobre web, quando dizem que está tudo liberado, que o virtual supera o real etc etc.

Talvez eu esteja defendendo um discurso tão religioso quanto os demais, porém quando se afirma algo de forma tão categórica, seja negando ou afirmando, me parece que se está bloqueado as possibilidades de entendimento dos fenômenos.

Humanismo ou não…o importante é continuar estudando a área, discutindo, propondo co-relações com outras áreas do saber.

Obrigado pela atenção.

21 11 2007
alexprimo

Renato, sugiro que leia o livro “Religião das Máquinas”, do Erick Felinto. Ele faz uma excelente análise crítica sobre o que você comenta. Mas não vamos generalizar, supondo que todo e qualquer texto sobre cibercultura vê a tecnologia como redentora.

Quanto a sua outra questão, sabe o que as formigas pensam sobre isso? Nada!!! :-D

21 11 2007
A formiga, a cigarra e o filósofo homossexual « Dossiê Alex Primo

[...] Ei, mas o que essas histórias têm em comum? Humm…de fato nada! Mas tem gente que acha que é tudo a mesma coisa! [...]

21 11 2007
Renato Bressan

Ok, Alex. Obrigado pela indicação. Aqui no PET-Facom da UFJF tem esse livro. Inclusive o Erick quando veio aqui até o autografou…rs

Abraços.

P.S. – Mas as formigas “pensam”…mais do que você pode imaginar.

22 11 2007
O Consumo da Informação e as Novas Tecnologias, « Herdeiro do Caos

[...] precisará ler esse post aqui para [...]

27 12 2007
Eduardo Sabbi

Creio que o problema das “explicações biológicas” esteja no fato de que ainda não temos o domínio completo delas (e talvez isso nunca aconteça). Veja por exemplo as diversas explicações aos fenômenos estranhos, paranormais, espirituais e etc., muitas delas incoerentes, outras bastante interessantes. Ainda nos falta muito conhecimento a respeito de nós mesmos e a velocidade das coisas no mundo moderno (inclui o cibernético) acaba ao mesmo tempo nos ajudando e atrapalhando nesta tarefa.

Mas enfim, me alio à tua proposição de poder utilizar variadas teorias de variados autores, mesmo que não concordemos com elas.

Um abraço.

10 03 2008
O que é memistória e como participar? « Dossiê Alex Primo

[...] Ou seja, uso o termo no que se refere a esse “jogo” da blogosfera, já que discordo da teorização sobre o conceito de Dawkins, impregnado de um determinismo biológico que [...]

17 07 2008
Daniel Drehmer

Eu sou da opinião de que lhe faria bem ler um pouco mais a respeito de memes.

Pelo pouquíssimo que lí a respeito do assunto em um capitulo do livro O Gene Egoísta, posso ver que mesmo a idéia seminal que Dawkins expõe no livro é mais consistente e robusta do que a forma que você a caracteriza aqui.

Mesmo nesse livro, o modelo explicado em poucas páginas já aponta claramente a natureza não “aditiva” do meme em contraponto ao gene… Ainda assim, isso, que você chama de “processo aditivo”, mesmo para epidemologia, é parcialmente errado, uma vez que há o processo de mutação e seleção natural – não é um processo de replica digitalmente perfeito (alias, foi tentando explicar como a seleção natural atua sobre replicadores que Dawkins fez [re?]nascer a analogia dos Memes, iniciando acidentalmente a memética como a conhecemos).

18 02 2009
O que “Don’t Click” e #pesquisapr nos ensinam sobre o Twitter como rede social « Dossiê Alex Primo

[...] Lição 2: apesar da pegadinha inofesiva e do potencial risco envolvido, podemos mais uma vez constatar a força do Twitter como rede social. Não apenas pela rapidez com que o link se espalhou, mas também pela confiança que depositamos em quem assinamos. Eu cliquei no link por que ele foi enviado pelo Gilberto, meu orientando de mestrado. Ou seja, a rede se forma, se mantém e se dinamiza pelos laços mantidos entre seus participantes. Por outro lado, isso não quer dizer que somos máquinas clicadoras, que repassamos tudo o que recebemos. Se assim fosse, toda estratégia de marketing viral teria o sucesso esperado pelas agências. Nem tampouco podemos supor que a comunicação humana é a mesma coisa que uma transmissão viral. [...]

10 03 2009
A obsolescência das idéias « Dossiê Alex Primo

[...] E neste mundo tecnológico, onde tudo é reduzido à informação quantificável, empacotável e transmissível, não importa como a ideia é grafada. Ela tem existência separada do corpo, e pode sofrer download daquele aparato úmido e perecível. Essa fantasia cibernética, claro, não foi escrita por um teórico gripado ou mergulhado em uma paixão arrebatadora. A ideia, para ele, não tem nem acento nem afeto. Talvez você não tenha nem ideia (nem idéia) do que estou falando. Nem tampouco ache importante uma crítica sobre o mecanicismo de muitas teorias sobre redes sociais, onde simplesmente se quantifica a circulação de informações, sem qualquer preocupação com as subjetividades e formações discursivas que contaminam necessariamente as ideias. Essa contaminação não importa nos debates transmissionistas, que equivalem comunicação e epidemias virais. [...]

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