A formiga, a cigarra e o filósofo homossexual

21 11 2007

A cigarra e a formiga

Era uma vez uma formiguinha chamada Selma. Quando o tempo esquentava, ela trabalhava, trabalhava, trabalhava. Em fila com suas colegas, carregava pesadíssimas folhas para dentro do formigueiro. Essas eram as reservas que garantiriam a vida no inverno.

Enquanto isso, a cigarra, de nome Pedro, cantava no tronco de um eucalipto. Sua voz tão bela atraía o interesse de todas as cigarras moças. Mas de tanto cantar, deixou todo o trabalho de lado. Morreu seco, queimado pelo sol.

Moças definitivamente não chamavam a atenção de outro personagem de nossa história. Este filósofo francês cedo percebeu que gostava de rapazes. Depois de escutar por diversas vezes que tal comportamento não era “natural” e que Deus não havia criado o homem para esse tipo de coisa, decidiu estudar isso tudo na academia.

Selma nunca pensou em contestar nada. Desde que nasceu, sabia exatamente qual era o seu lugar na sociedade. Herdeira dos compromissos da casta, trabalhava, trabalhava, trabalhava. Apesar de tanta dedicação, suas parentes, da geração seguinte, nunca ouviram falar dela.

Pedro também se foi. Mas não fez falta. Tantos outros machos cantaram no eucalipto. E encataram as meninas cigarras da época. E quantas delas deram a luz a outros cantores magníficos…que também não faziam a mínima idéia de quem teria sido Pedro.

O filósofo homossexual nunca deu muita bola para o barulho das cigarras. O que lhe preocupava de fato era como sua forma de amar era interpretada de formas diferentes em épocas distintas. Ele queria compreender como uma prática social compartilhada pelos homens da Grécia antiga havia sido mais tarde registrada nos manuais de medicina como uma doença, um comportamento que rompia com o funcionamento “normal” do corpo e da sociedade.

Selma, pelo contrário, sempre respeitou a ordem das coisas. Nunca revoltou-se com o trabalho pesado, muito menos com a hierarquia no formigueiro. As jovens cigarras também eram muito respeitosas com Pedro. Reconheciam nele a autoridade e a força, própria de todo bom cantor.

Poder, para o filósofo homossexual, nunca foi algo herdado, nem uma concessão ao soberano. Trata-se de uma relação de forças, que repercurte não apenas na relação entre os corpos, mas no próprio saber.

Ei, mas o que essas histórias têm em comum? Humm…de fato nada! Mas tem gente que acha que é tudo a mesma coisa!

Update: não deixe de ler o post anterior para compreender o contexto desta “pseudo-fábula”.


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23 respostas

21 11 2007
Marcia

pelo menos algo a gente tem em comum, diria La Fontaine, o criador daquela velha propaganda de Free box.

21 11 2007
geleiairreal

Celma = Selma?

“deram a luz a outros”
tinyurl.com/2fm48z
tinyurl.com/2dmfpo

22 11 2007
Camila

Muito bom! Alex, gostei muito da palestra, mesmo já tendo acompanhado varias coisas aqui no blog. Queria bater mais um papo contigo na saída, mas por conta do horário e receio do trânsito na saída da faculdade, tive que sair. Espero que não faltem oportunidades. Sucesso!

22 11 2007
emanuele marimpietri

Que estorinha mais ou menos, sô…
aliás , mais pra menos , bem menos…

22 11 2007
alexprimo

Emanuele, obrigado pela leitura. Veja, o foco aqui não é a história, que é de fato (e intencionalmente) “sem pé, nem cabeça”. O enredo pouca importa. Meu objetivo aqui é ilustrar a crítica que fiz no post anterior.

Você sabe de qual filósofo estou falando, né? E você conhece sua história pessoal e acadêmica, correto? E certamente compreendeu a crítica aqui travestida de fábula, não é verdade? ;-)

22 11 2007
alexprimo

Camila, foi muito legal poder conhecê-la pessoalmente, já que nos conhecíamos bem na blogosfera!

A palestra foi estruturada não apenas em virtude de minhas pesquisas. Foi também baseada nas conversações que aqui estabelecemos. Logo, sinta-se co-autora da palestra!!!

22 11 2007
Yuri Almeida

Graças a palestra entendi a fábula….hehehe…e a conversa fluida na ou da blogosfera.
Parabéns pelo trabalho e pela atenção lá na palestra.

22 11 2007
Urubu

entendi tudim, quer ver? A formiga é o Johnson, que é super produtivo e lança um livro atrás do outro. O cigarro (cigarra macho é cigarro, certo?) é o Barabasi, que tanto cantou e se expôs que acabou queimado. Já o filósofo gay é uma crítica a todos os demais envolvidos com a pesquisa científica (é gay para incluir homens e mulheres, mas deveria ser bissexual) que ficam elocubrando mas não publicam e nem sequer fazem barulho.
Faltou só identificar os escravos que dão aulas e corrigem texto de alunos como loucos, aí a fábula estaria mesmo fabulosa

22 11 2007
Gisele

Depois que Urubu explicou fez muito mais sentindo. :-P

22 11 2007
geleiairreal

elUcubrar

22 11 2007
Marcia

eu gostaria de fazer uma colaboração altamente científica a este pôsti, considerando o caráter inter-bi-trans desta comunidade.

acho que o momento requer uma Parada da Liberdade do Mapa Mental. Michel ficaria encantado com nossa forma de exercício do poder. e com as cores. e os símbolos. Pierre e Selma podem ser nossos mascotes.

e eu juro que não bebi nada.

22 11 2007
Eduardo Pelosi

Já tinha lido alguns artigos seus, gostei muito da sua palestra em Salvador e vim conferir o blog, está de parabéns!

abraço

23 11 2007
Urubu

CARMENCITA está certa, elUcubra-se! E dizer que eu elocubrei todos esses anos…

23 11 2007
geleiairreal

¡Locura!

23 11 2007
geleiairreal

Estou planejando montar um cursinho básico:

Português Brasileiro para Pós-doutorandos

23 11 2007
MC

pq trocou pierre pra pedro? ficou com medo do meu comentário rebatedor da idéia (sua e absurda) de que pierre, filósofo francês, é gay? ele até disse num livro que amava sua esposa! o que contribuiu muito pra minha pesquisa, aliás. aaaaffff odeio quando criticam meus ídolos
AHAHAHAHAHA

25 11 2007
Sean

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ãh?

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26 11 2007
alexprimo

Amigos, obrigado pelas interpretações semióticas desta pseudo-fábula! Realmente acrescentaram muito!!! :-D

E obrigado às pessoas que participaram de minhas palestras em Salavador e vieram aqui conferir o blog. Espero não ter assustado vocês com este último post! hehehe

26 11 2007
Alessandra Carvalho

achei digno! rsrsr.

21 12 2007
Rita

saudades das escritas maravilhosas deste blog! mas boas férias!

24 12 2007
träsel

o filósofo se interessou pela formiga por causa do sex appeal homossexual clássico dos estivadores e pelo charme “amante latino” da cigarra?

enfim, a moral da história seria algo como “academia é coisa de uranista”? :P

24 12 2007
Carrion, Carlos Eduardo

Ficamos chocados com a morte, com o fim. Mas me pergunto? Que importância tem para o cigarro cantor se ele não vai ser lembrado? Se na sua vida, por curta que tenha sido, tenha sido feliz, tenha trazido felicidade para tantas que também não serão lembradas. O que é o prazer que se têm com uma mulher, com a felicidade que se tem com uma fêmea, comparado com um monte de garatujas pósteras, que talvez nem tenham a ver com o que o autor tenha pensado, ou, pior ainda, o autor pensou em dizer X e os leitores, os beneficiários de sua obra, tenham interpretado Y?

30 12 2007
Sean

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ninguém pra tirar o pó, não?

pois é.
que 2008 seja mais pra rir do que pra trabalhar.
até dos dotôs merecem isso.
abraço.

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