Interney Blogs na Compós: micromídia digital e encadeamento midiático

19 03 2008

Logo da CompósJá estão no ar os trabalhos aprovados para o XVII Encontro da Compós. Trata-se de um dos eventos nacionais mais importantes na área da Comunicação. Neste ano estarei apresentando no GT Cibercultura e Comunicação o artigo “Interney Blogs como micromídia digital: Elementos para o estudo do encadeamento midiático”. O trabalho pode ser acessado aqui ou no próprio site da Compós (viste a biblioteca de cada GT para acessar todos os textos).

Durante o texto, busco mostrar que os conceitos de broadcasting e narrowcasting não são mais suficientes para o estudo da estrutura midiática contemporânea. Nesse sentido, utilizo a tipologia de Thornton (mídia de massa, mídia de nicho e micromídia) para o estudo dos blogs. Ao reconhecer a especificidade dos blogs independentes em relação a outras formas de micromídia, como fanzines e rádios livres, sugiro que aqueles fazem parte de uma sub-categoria: micromídia digital.

Logo do Interney BlogsPara o debate sobre quando blogs são mídia de nicho (ou mídia segmentada) ou micromídia digital, discuto as interações nesses espaços através do conceito de contrato de comunicação de Charaudeau. Mas, para essa argumentação não ficar muito abstrata (!), faço uma análise empírica sobre o condomínio de blogs mais conhecido do Brasil, o Interney Blogs.

Após questionar a simplista oposição entre blogs e mídia de massa (update: no sentido de que os primeiros nos salvariam definitivamente das corporações midiáticas. Claro, blogs nunca serão massivos!) e apontar o uso de blogs/programa por indústrias culturais (como o Bloglogs da Globo), eu proponho uma discussão sobre o que chamei de “encadeamento midiático”. Ou seja, a inter-relação entre os diferentes níveis midiáticos. Durante essa argumentação, busco demonstrar a intertextualidade existente entre os níveis massivo, de nicho e micromidiático. E, claro, relato como os blogs de micromídia digital analisam temas encontrados na mídia tradicional, e como eles também pautam notícias nos veículos de grandes corporações. Finalmente, aponto como a própria micromídia digital pode retroalimentar as indústrias culturais hegemônicas.

Espero poder explicar tudo isso melhor em futuros posts. Por enquanto, fica a dica de visitar as páginas dos GTs e conhecer o que será discutido no Encontro da Compós, que será realizado em São Paulo, entre 3 e 6 de junho.

Em tempo: aproveito para agradecer a participação dos blogueiros do Interney Blogs na pesquisa. Agradeço também a mestranda Sandra Bordini que me ajudou na análise da propaganda veiculada naqueles blogs.

UPDATE: Meu artigo sobre o Interney Blogs foi eleito, durante a realização da Compós 2008, o segundo melhor trabalho apresentado no GT de Cibercultura. Agradeço os votos dos participantes e a organização da Compós pela menção honrosa.


Acções

Informação

19 respostas

19 03 2008
Sandra Bordini Mazzocato

Não há de que. =P

Puxa esse artigo deve estar tri!!

21 03 2008
Marcelo Estraviz

Olá Primo, não te conhecia, soube de você pelo twitter do meu amigo Edney. Queria aqui tecer uns comentários sobre seu artigo. Pode ser?

- Achei que há um equívoco conceitual grande. Você “coisificou” os blogs. Não acho que há grande interesse em discutir blogs, strictu sensu. Eles são sistemas, linhas de código, só isso. O que interessa são as pessoas que neles escrevem. E a discussão sobre blogosfera é meio datada, lá por 2001, como máximo. Hoje as pessoas já não se utilizam somente de blogs. Existem várias outras “linhas de código” disponíveis para nós.

- Ao insistir em usar o blog como uma micromidia (coisificando-o), você comete segundo equivoco ao citar Charaudeau. Não sei trata de “Estamos aqui pra dizer o que”, e sim, basicamente “estamos aqui pra dizer”, ponto. A grande evolução que se dá através dos meios informáticos (chame-os virtuais, internautas, blogosféricos, “uárever”) é o simples fato de agora haver VOZ. O risco que se corre ao estudar o fato é “coisificar” novamente o processo, esquecendo-se do sujeito e avaliando o sistema. Aí passamos a chamar blog de mídia, ou diário, ou relato, etc. Não importa o que o blog seja e sim que existe VOZ, onde antes não havia. Isso em redes distribuidas (leia UGARTE) gera a ampliação da polifonia e dela se faz o que se quiser, pouco importa, pois não há necessidade de estudo nos termos hierárquicos, já que é novo o paradigma. Trata-se de linkania.

- Por último, me assustei com sua última frase do artigo. É quase um banho de agua fria num chuveiro já meio morno: Dizer que “a própria blogosfera pode agir como retroalimentaçao das estruturas de poder” é como concluir que a água pode servir para afogar alguem. Sim, a blogosfera pode servir pra isso, mas serve pra um monte de outras coisas. A água pode afogar alguem, mas também nos mata a sede.

Forte abraço!

Marcelo Estraviz

ps: publico este comentário também no blog do Hernani, já que o debate parece que ocorreu mesmo por lá. :)

21 03 2008
alexprimo

Prezado Marcelo, muito obrigado por seu comentário. Publiquei o artigo aqui no blog justamente para motivar um debate público sobre as interações mediadas por computador e como elas rearticulam a estrutura midiática contemporânea. Nesse sentido, suas opiniões são importantes para esse debate. Mas, permita-me divergir dos pontos que você levanta:

- Veja, venho pesquisando e escrevendo sobre interações mediadas por computador desde 1997 (quando publiquei um primeiro artigo sobre comunidades virtuais). Como você poderá perceber em meu livro e em todos meus artigos (podes conhecê-los na seção “Publicações” aqui do blog), minha perspectiva é sistêmico-relacional. Nos últimos 2 anos, tenho justamente criticado algumas abordagens da ciência das redes que de fato coisificam as interações no ciberespaço por apenas mapear nós e quantificar links. Além dos estudos sobre conversações em blogs que conduzi (buscando sempre um tratamento empírico para evitar a pura abstração coisificante), trabalhei um método para o estudo dos relacionamentos em redes sociais. Ao consultares meus artigos de 2007, verás como defendo o estudo de características como intimidade, compromisso, confiança, etc. Logo, a crítica de que trato de blogs de forma “coisificada” não é precisa. Tenho certeza que depois de ler meus artigos anteriores poderemos continuar este debate.

- Não concordo que blogs sejam coisa do passado. Nem tampouco desconsidero outras formas de interação. Este artigo que aqui publiquei é sobre blogs. Mas poderia ser sobre Twitter, Second Life, etc. Qual o problema de estudar blogs? Precisamos ter cuidado em achar que os fenômenos da comunicação sejam assim tão fugidios e que logo se esgotam. Creio, sim, que as interações na blogosfera são um dos fenômenos mais interessantes da cibercultura. Por outro lado, ainda existe muito para se estudar sobre eles. E, diante de suas questões, vejo que de fato ainda persistem muitos estereótipos sobre o que são blogs. Não se pode, porém, adotar uma postura normativa: blogs DEVERIAM ser assim ou assado.

- Quando falo em blogs, certamente não estou falando apenas sobre o software. Justamente por isso proponho a divisão entre blog/programa, blog/texto e blog/lugar. Mas, o que me interessa de fato são as interações em blogs entre blogueiros e comentaristas (como podes comprovar em meus artigos anteriores). Sou um crítico das análises meramente tecnicistas da cibercultura. O que me interessam de fato são os processos sociais, as conversações, a cooperação e o conflito no ciberespaço.

- Não sei se você é da comunicação, mas estudamos muito as características da TV, do rádio, de jornais, revistas, etc. E buscamos investigar a articulação dessa estrutura midiática e como as relações de poder aí se estabelecem. Diante da grande quantidade de blogs (não apenas os pessoais como também os profissionais, corporativos, etc.) e da variedade de interações na blogosfera, precisamos ver como isso se articula com outros meios de comunicação. E com a entrada de grandes corporações midiáticas na blogosfera, precisamos avaliar que impacto isso tem nas estruturas de poder nos processos sociais.

- Como sou muito entusiasmado com os processos de cooperação no ciberespaço (Wikis, webjornalismo participativo, educação a distância, etc.) e com o impacto disso na educação e na construção do conhecimento, não poderia deixar de estudar a blogosfera nesse contexto. Contudo, não poderia permanecer em uma postura panfletária, idealista. Caso contrário, trabalharia apenas com uma visão essencialista da blogosfera. Isso em nada nos ajudaria. E é justamente nesse sentido que busquei observar empiricamente a profissionalização de muitos blogueiros e o uso de blogs por corporações na comunicação interna e por grandes instituições midiáticas.

- Tanto você quanto o Hernani ficaram chocados com a frase final do artigo! Mas devem ter visto também a penúltima frase do trabalho, que fala da importância política dos blogs em debater as informações da grande mídia. Também devem ter lido no desenvolvimento do trabalho a ênfase dada na investigação empírica sobre a importância dada pelos entrevistados à interação com os comentaristas e ao debate de notícias dos meios tradicionais. Contudo, infelizmente não apenas pessoas comprometidas com o social têm blogs, Marcelo. Você sabe quantos blogs defendem interesses de setores retrógrados. E sabe do número de blogs de instituições midiáticas tradicionais: os participantes do BBB mantém blogs, as celebridades da Globo estão no BlogLog. Então, pergunto: blogs são apenas críticos, independentes, libertários? Ora, seria uma visão essencialista pensar que blogs (os blogueiros e seus comentaristas) são apenas mídia radical (Downing).

- Quanto à citação do Charaudeau, por favor consulte a página 69 do livro “Discurso das Mídias” do referido autor.

Abraços e volte sempre!

21 03 2008
Marcelo Estraviz

Olá Primo! Não lerei a página 69 do livro do autor… (isso parece programa religioso da madrugada, pedindo pra ler tal versículo! risos…) Seria mais simples você falar o que quer ou o que consta nessa tal página do que essa aparente erudição desenxabida, né?

Ainda acho que não entendeste… Releia seu comentário acima. Você se perde entre chamar blogs de coisas ou de pessoas. Há uma confusão clara aí. E é natural, não se preocupe. Somos treinados a coisificar as pessoas, os processos… da mesma forma, somos treinados a humanizar as coisas. Veja como desde pequenos vemos desenhos onde trens falam, ou até todos os animais andam em 2 patas. Daí pra considerar uma empresa um ser, é um passo. Esse processo causticante nos transforma em acriticos, esquecemos que uma vaca é uma vaca, um trem é uma coisa (no caso dos mineiros é várias) e uma empresa é só um aglomerado de pessoas.

Aliás, tudo é só um aglomerado de pessoas. Você fala da TV, do rádio, dos jornais, das revistas… Eu sei e você sabe que estamos falando do que se disse ou se escreveu, mas o discurso comum é o de personalizarmos o objeto jornal e o segundo passo é o de cosificar o agente que o escreveu, transformando-o em jornal (o que antes era um humano).

Parece simples, básico, banal, tolo né? Mas é um detalhe tão importante meu amigo… faz toda a diferença! Repare aqui no que disseste: “…infelizmente não apenas pessoas comprometidas com o social têm blogs, Marcelo. Você sabe quantos blogs defendem interesses de setores retrógrados…”
Primeiro você diz pessoas com blogs, e na segunda acepção, já cai na armadilha e ao invés de falar de pessoas, diz que blogs defendem interesses. Blogs são linhas de código! Just it! Pessoas podem defenfer interesses, claro. Como podem ser contraditórios, esquisitos, chatos, interessantes, idealistas, poéticos. São pessoas, man! Deliciosamente humanos!

Internet são pessoas! E pessoas são uma multidão de pensamentos. Bons e maus, burros e inteligentes, herméticos e linkados. Cada um de nós já é uma multidão, imagine então uma multidão o infinito que é.

E releia minhas coisas, please. Eu não disse que blogs são coisas do passado. Eu disse que a discussão sobre isso o é. Eu hoje leio feeds. Nem sei quem tem blog com anúncio ou sem. Essa discussão não me interessa! Entendo que você, que estuda pelo visto a comunicação, tenha interesse nesse viés. Mas minha humilde sugestão é que não caias na tentação de esquecer que por trás dessas letras todas existem pessoas. Era só esse o toque. Essas pessoas são fascinantes por suas imperfeições e contraditoriedades. Transformá-las em um blog, ou um rádio ou uma tese, é coisificá-las.

Todo e qualquer teórico clássico da comunicação não tem elementos para este novo paradigma. Não falo aqui como idealista ou essencialista. É um fato, as redes distribuídas não existiam em outra época da humanidade, Não quero com isso ser fatalista, messiânico, pós-moderno, nada. É um fato. As redes distribuidas são a maior novidade desse processo todo. Alteram tudo.

Hoje mesmo estava falando com um amigo meu que trabalha no mercado financeiro. Poie ele me disse isso: Tudo que aprrendeu na faculdade jogou no lixo. Porque hoje um produtor de soja sabe o preço da soja em Chicago. Faz 10 anos nao sabia e era dessa informação que intermediários ganhavam dinheiro. Hoje é mais complexo ganhar dinheiro, porque a informação está disponibilizada de forma distribuída, o que é mais do que descentralizada.

Imagino que conheças este desenho: Nele está toda a mudança de paradigma. E é nossa função, minha sua, do hernani, do papa e de qualquer um, ampliarmos a distribuição da rede distribuida. As tais estruturas de poder que comentas não me interessam, elas estão ruindo e isso não é essencialismo nem idealismo. É um fato. Eu me interesso por esse fato, acompanho esse processo. Retruco quando tentam me dizer que existem coisas. Eu respondo que o que existem são pessoas. Aqui sou eu e você, intermediados por linhas de código. E existem os que nos leem. E é isso. Não há nenhuma estrutura de poder, Só se você decidir bloquear esta mensagem, aí estará gerando um nó, represando a informação. Eu, assim como outros, estaremos sempre(entenda: sempre!) contribuindo para desobstruir represas. Ah! e sempre com bom humor, claro. Porque já dizia o poeta da sua terra: “eles passarão, eu passarinho!”. Você já faz parte do caldo sináptico da linkania. O toque que te dou é que o hermetismo acadêmico ruirá se se pautar pelo clássico. Há coisas novas (novíssimas) pra ler. Leia-as. Principalmente a página 69 de cada uma delas.

:P

abraços!

marcelo

21 03 2008
Marcelo Estraviz

ops, esqueci de mostrar o tal desenho: ei-lo:
http://www.deugarte.com/gomi/topologiasdered.jpg

22 03 2008
Marcelo Estraviz

mandei mais coisas pelo meu twitter: /tipuri

abs!

23 03 2008
alexprimo

Prezado Marcelo, lendo seus comentários, como os anteriores do Hernani, fiquei na dúvida se vocês realmente leram o texto. Desculpe se estou fazendo uma injustiça, mas boa parte do que você “cobra” está lá discutido. Será que vocês não leram apenas algumas partes ou apenas a conclusão? Percebo que vocês se fixaram na última frase. Parece-me que fizeram uma leitura descontextualizada desse pequeno trecho e saíram despejando críticas que, sinceramente, não cabem nem naquele texto nem em meus anteriores.

Em seu último comentário você diz haver uma mistura em meus comentários sobre blogs. Veja, como falei brevemente em meu artigo como também em trabalhos anteriores, a palavra blog é utilizada com 3 sentidos diferentes (o que gera confusões). Costuma-se utilizar o termo para se referir a um programa, a um tipo de texto e a um lugar de encontro. O que mais interessa a minhas pesquisas são os 2 últimos sentidos: como texto (e no artigo eu destaco que blogs são um processo de escrita coletiva. Você viu, né?) e como lugar para interações. Logo, você não precisa lembrar que a “Internet são pessoas”. Em meus trabalhos sobre interação mútua e reativa encontrarás uma grande crítica sobre as visões tecnicistas da tal “interatividade” e uma proposta para o estudo da comunicação interpessoal no ciberespaço.

Os blogs/texto são, obviamente, escrito por pessoas. Não me refiro apenas aos posts, mas também aos comentários. E como lugar de fluxos (Castells), trata-se de um estabelecimento virtual para o encontro de pessoas, claro! E onde estão essas pessoas em meu artigo? Estão lá sendo entrevistadas. Os blogueiros do Interney estão no artigo contando suas práticas e como interagem com os outros interagentes. Se você ainda não teve tempo de ler o artigo, verás que ele discute basicamente os processos interativos na blogosfera.

O uso do termo “blog” com sentidos diferentes realmente confunde. Inclusive você! Em um momento você diz: “Blogs são linhas de código! Just it!”. Depois fala que a internet (e portanto os blogs) são pessoas. Quando falo blogs, estou me referindo a um processo social mediado pela escrita. Não acredito que blogs sejam apenas linhas de código. Isso seria uma visão tecnicista.

Marcelo, mesmo que você não visite os blogs diretamente, você também está os lendo através dos feeds. Você pode não estar indo até o blog/lugar (pena, pois acaba perdendo os comentários), mas está acessando os blog/textos. E, mais uma vez, discordo que a discussão sobre blogs seja coisa do passado. O artigo que escrevi está debatendo um novo momento da blogosfera: a profissionalização de blogueiros independentes. Para não cansar ninguém, não vou resumi-lo aqui. Além disso, esta conversa mostra que ainda há muito a debater-se sobre blogs.

É muito perigoso achar que certos temas se tornam ultrapassados. Será que não há nada a mais a se falar sobre rádio, por exemplo? Os interesses por detrás das instituições midiáticas? O que os ouvintes fazem com os produtos culturais que escutam? Pensar que estes temas, como a própria questão dos blogs, estão superados é adotar uma visão estática da história (como se os fenômenos em dado momento ficassem congelados ou sumissem).

Marcelo, você comentou que não me conhecia. Portanto, não conhece meu trabalho. Logo, antes de sair atirando, seria importante conhecer minhas bases. Se antes de sair recitando um manifesto tivesse olhado quem é seu interlocutor, teria visto que aqui encontrarias um potencial parceiro, que defende bandeiras muito parecidas. Só para você ter uma idéia, na disciplina que estou agora ministrando no pós estamos discutindo Multidão (do Negri), sociedade em rede (Castells) sabedoria das multidões, longa cauda, jornalismo cidadão, etc. São certamente perspectivas diferentes, mas todas pensam a colaboração e a sociabilidade na rede. Nesse sentido, para que uma conversa seja realmente dialógica (para que ninguém fique falando sozinho), seria importante também conhecer com quem se fala, né?

Tenho grande interesse nos movimentos ativistas. Contudo, os movimentos que se resumem ao recitar de um certo manifesto muitas vezes assumem uma postura monológica. E não é assim que a multidão vai ser ampliada. E não é assim que ela ganha força.

Certamente verás que o artigo (quando tiveres mais tempo para lê-lo) faz uma discussão sobre o embate de forças na blogosfera, traz um alerta sobre o uso de blogs pelos mesmos poderes midiáticos hegemônicos do passado, além de apontar a profissionalização de muitos produtores independentes (é aí que entra o Interney Blogs). Talvez você goste de alguns temas, mas não de outros. De toda forma, parece-me que o artigo não é seu principal alvo, mas sim o fazer universitário (tendo em vista sua crítica à universidade que apareceu no meio de seu comentário anterior).

Mas, infelizmente, acho que esta conversação já se tornou circular.

24 03 2008
alexprimo

Ah, desculpe, esqueci de comentar a questão das redes. Marcelo, a tipologia de redes que apresentas é bem conhecida. Contudo, a ciência das redes evoluiu muito. A imagem que você apresenta mostra uma rede igualitária, onde todos os nós têm o mesmo peso. Contudo, a web (sim, uma rede de pessoas) como tantas outras redes não são igualitárias. Nesse sentido, sugiro gentilmente este verbete da wikipédia sobre a teoria das redes sem escalas: http://en.wikipedia.org/wiki/Scale-free_network

Existem muitos nós que tem mais “peso” na rede, os chamados “hubs”. O Edney, por exemplo, tendo em vista todas as conexões que recebe, é um hub da blogosfera brasileira (e por isso um estudo sobre o Interney Blogs). Meu blog, por sua vez, não é.

Mais informações podem ser encontradas no excelente livro de Barabási: “Linked”.

24 03 2008
Marcelo Estraviz

Parceiro (é disso que precisamos, certo?): Dizes que a conversa está circular, eu diria que desigual. Estás a querer mostrar que sabes mais, que eres mais. Insistes nessa posição hierarquicamente insensata ao afirmar 4 (quatro!) vezes que não li seu artigo. Li, primo, li.

Não li seus outros artigos, é fato. Assim como as páginas 69 de livros citados. Mas afirmar que por isso não o conheço é querer reafirmar a cantilena acadêmica do “você sabe com quem está falando?”. Oras, estou falando com você! Você também não leu coisas minhas, mas não te peço que as leias para só assim estabelecermos uma dialógica. Falemos, pois, é grátis! Crescemos ambos!

Por não me conformar com um processo professoral, venho teimosamente seguir o debate (porque é grátis! e assim ganhamos todos!), isso não é “sair atirando”, é a gratuidade de crescer conversando. Não se machuque, não se sinta acuado. Não perderás pontos. “…É a conversa descompromissada da rede, não hierarquica, não linear…” (ESTRAVIZ). Debato com você como o faço com o Hernani, com o Edney, com qualquer um. Crescemos todos.

Ontem no canal brasil encontrei frase ótima: “eles enquadram, nós arredondamos”. Não é boa?

No seu artigo, (que li, cáspita! risos…) discutes a profissionalização dos blogueiros. Mas repito, isso é datado. Não vi seus questionários (não os forneceste no artigo), mas duvide-o-dó que eles se considerem profissionais blogueiros. Então essa derivação que fizeste, fazendo um artigo sobre a profissionalização, entrevistando não-profissionais (em sua maioria) é o que? Uma defesa de tese, indefensável. Defendes a lei da gravidade perguntando pras maças se elas caem. Pra quê?

Minha insistência em que internet são pessoas é para que evitemos essas rotulagens. Academia faz isso sempre, o deus mercado idem. Mas estamos aqui pra evitar, ao menos reduzir danos, na pior dashipóteses, nos divertir. Nós arredondamos!

abraços dialógicos em danças circulares,

tipuri

24 03 2008
Marcelo Estraviz

ops! também esqueci de mencionar a questão das redes (obrigado pelo link). Mas perceba, a scale-fre work é basicamente a rede descentralizada. Não há diferença. Ainda nos orgulhamos de falar sobre descentralismos como se isso fosse genial. Não é mais. É antiquado.

Claro que sei que convivemos simultaneamente com as 3 redes (centralizada, descentralizada e distribuida), mas a questão é que valorizar os hubs como um grande barato modernoso é… desculpe a insistência: antiquado!

Claro que sei que meu amigo Edney éum grande hub! Mas nem ele considera isso algo muito grande coisa! Ele sabe que o que importa é a distribuição de reputações. Valorizar os hubs é criar uma nova oligarquia web. E Edney (que bom!) não quer isso! E assim que o quiser (e ele sabe) perde o poder de ser hub. Não é interessante isso? A reputação de hub está intimamente ligada a seu despretencioso interesse em não ser hub. São os chamados laços fracos, que deves conhecer.

Então é isso o resumo desta parte de nossa dialógica dança circular sagrada: Não valorizemos futuras oligarquias de hubs,pois isso prejudicará fundamentalmente esse hubs.

Apóio-te a que escrevas novos artigos refletindo sobre as redes distribuídas e seus contextos não hierárquicos. Isso sim seria contribuição singular.

abraço!

estraviz

25 03 2008
alexprimo

Marcelo, talvez tenha sido realmente um erro ter ido buscar uma conversação. Quando vi no Technorati que meu texto (que coloquei aqui justamente para debater) havia sido citado no blog do Hernani, fui logo conferir! Infelizmente, percebi uma crítica que julguei não fazer justiça ao trabalho, que havia sido escrito com seriedade e é baseado em entrevistas e traz muitas ilustrações sobre os temas discutidos. O Hernani havia entendido que eu defendia que blogs eram mídia de massa. Não apenas essa afirmativa seria totalmente errada (eu jamais diria isso, obviamente), quanto em nenhum momento do texto isso aparece. Porém, antes de me manifestar, fui ler um pouco do blog do Hernani, olhar os projetos que participa. Também fui ler sobre o que vocês dois chamam de linkania. Em meu primeiro comentário, reconheci que uma frase da introdução poderia ser melhorada, para evitar novas confusões. Mesmo assim, vocês dois fixaram-se apenas na última frase do trabalho, fazendo também uma leitura diferente do que era defendido em todo o texto.

Apesar de ter ido com grande interesse ao debate, o que encontrei foi uma discussão muito mais baseada no enfrentamento. Mas isso também é próprio da interação mediada por computador. As “flame wars” nasceram com o e-mail! Veja só, tem gente até que se diverte frequentando blogs para deliberadamente irritar as comunidades que lá se encontram.

Acredite-me, também odeio a arrogância de muitos acadêmicos. Acho improdutivo as discussões que se transformam em disputas e logo partem para um tom agressivo.

No entanto, acho que o debate no blog do Hernani também logo assumiu um tom acusativo e um tanto agressivo. Gosto muito de discutir idéias, realmente gosto do debate. Contudo, fiquei triste de ver que boa parte das críticas vinham de mal-entendidos e que não faziam justiça ao que estava no artigo que aqui divulguei. Fiquei igualmente surpreso em ouvir que eu estava simplesmente negligenciando os fatores sociais. Foi nesse sentido que comentei que minha história acadêmica está justamente ligada a esse estudo. Claro, parto de uma perspectiva que você pode não concordar, mas é definitivamente uma visão interacionista. Logo, não pense que é um “carteiraço”. Foi apenas um alerta: leve em consideração o outro com quem fala, para não correr o risco de falar sozinho, sem escutar. Trata-se de uma ética do diálogo.

Com relação a outras idéias, realmente divergimos. Respeito sua opinião. Mas, não posso concordar com a maior parte do que disseste aqui. Nem que a discussão sobre blogs está superada, nem tampouco que a teoria das redes sem escalas é “antiquada”! Tenho muitas críticas à ciência das redes, mas certamente ela não está superada.

Veja, apesar de nenhum de nós dois gostar do tom professoral, de posturas normativas e de postulados do tipo “meu conceito é melhor que o seu”, é possível identificar (paradoxalmente!) muito dessas características em seu discurso, Marcelo. Digo isso não para lhe ofender, tenha certeza.

Mas, enfim, encerro aqui minha participação neste diálogo. Sim, estou pulando fora. É que acho que chegamos num ponto em que estamos cansando nossos leitores e pouco estamos avançando. Mostramos nossas premissas, discordamos mutuamente. Espero em uma próxima oportunidade tomarmos uma cerveja juntos e rirmos disto. Quem sabe o encontro presencial mude o tom da conversa ;-)

25 03 2008
Gisele

Nossa, e eu perdi o debate… mas foi interessante, sabem?

26 03 2008
Marcelo Estraviz

ok! marquemos cerveja! adoro cerveja! :P

26 03 2008
hernani dimantas

Primo, creio q vc não entendeu nada. Eu não concordo com a tua posição que blogs não se opõe a mídia de massa. Eu comentei no comunix que a internet como um todo se opõe a mídia de massa…. vc está afirmando coisas aí em cima que eu não falei. Disse apenas que vc estava equivocado nas suas analises, pois o interney blogs não podem ser analisados sob esse enfoque (nem blogger, nem insanus, nem qquer movimento que emerge da rede). E, em nenhum momento deixei de criticar idéias. No momento que vc entrou no debate com palavras como ressentimento, falta de gentilezas, ‘tem q estudar comunidades’ e etc… o debate saiu do âmbito das idéias e caminhou para o enfrentamento. Eu dei um basta (ok… fui tosco, admito). BTW… eu tb gosto de cervejas!!!
abs, na boa!!! hdhd

26 03 2008
alexprimo

Oi Hernani! É, acho que houve muitos mal-entendidos em todo este debate. Entendo que blogs podem tanto ser utilizados como forma de resistência, como também podem ser utilizados por grandes instituições midiáticas (o que não quer dizer que eles passam a ser massivos, claro). Veja o meio rádio. Ele foi o principal meio utilizado pela propaganda nazista. Por outro lado, o movimento das rádios livres, nos anos 70, foi fundamental na luta contra os regimes ditatoriais.

Sou um entusiasta da blogosfera, confesso, por abrir espaços livres para a reflexão sobre o mundo e para a discussão dialógica sobre os conteúdos dos meios massivos (tipicamente monológicos). Por outro lado, precisamos estar alertas para o fato de que as indústrias culturais passam a utilizar os blogs também com intuitos persuasivos e meramente mercadológicos.

Ou seja, tecnologias de comunicação não são nem neutras, nem necessariamente boas ou ruins. Logo, nem blogs, nem rádio, nem qualquer outro meio podem ser pensados de forma maniqueísta. Esse era meu objetivo no artigo.

Espero ter sido mais claro!

Ei, essa mesa de bar já está ficando lotada! :-)

14 04 2008
Träsel

Tudo bem, Alex? Andei sumido, mas quem é vivo sempre aparece nos comentários do blog. :-)

Concordo com a maior parte do artigo. Acho que o uso do conceito de Charaudeau em articulação com o conceito do Thornton pode ajudar a dar conta da conceitualização de blog, que para mim é muito problemática – meu artigo no livro sobre blogs da Raquel e Adriana é justamente a respeito de como hoje em dia está mais difícil definir blog com base nas características materiais (ordem cronológica descrescente, comentários etc.).

Porém, uma coisa ficou me incomodando. O objetivo era verificar se há concorrência ou encadeamento entre blogs e mídia de massa. A conclusão é que existe encadeamento. Embora eu concorde com a conclusão em nível de doxa, não acho que os resultados da pesquisa empírica permitam chegar a uma resposta tão definitiva em nível de logos. O ponto fraco do estudo é ter se baseado nas opiniões dos próprios blogueiros sobre o assunto, que pode estar contaminada pela ideologia em torno dos blogs. Em outras palavras, será que podemos considerar os blogs bem integrados à mídia de massa só porque os blogueiros dizem que sim?

Queria que você comentasse mais a respeito disso aqui nesse espaço, já que no artigo a construção dessa conclusão pode não ter aparecido por causa das restrições de espaço e tempo. Ou talvez o artigo pareça mais conclusivo do que realmente é.

14 04 2008
alexprimo

Olá Träsel, que bom te ver de volta! Eu a Marcia estávamos conversando na sexta como sumimos dos blogs dos amigos em virtude do volume de trabalho. Precisamos recuperar a boa e velha interação de sempre :-)

De fato, definir blogs apenas pelas questões técnicas não apenas não é suficiente, como nunca foi! Por isso a minha insistência em separar o que é programa, espaço e texto em blogs. Apenas analisando a grande quantidade de usos e interações em blogs é que poderemos de fato conseguir defini-los de forma a respeitar sua complexidade.

Mas a questão, Träsel, que me colocas é de extrema relevância. Certamente trata-se de um primeiro trabalho sobre encadeamento midiático. Ainda será preciso várias outras investigações empíricas para endereçar tantas modificações na atual estrutura midiática.

Na verdade, eu não buscava avaliar simplesmente o encadeamento entre blogs e mídia de massa, mas sim ultrapassar a velha dicotomia entre broadcasting e narrowcasting. Além disso, mostrar que blogs podem ser importante mídia radical ou alternativa, mas também funcionar como mídia de nicho. Logo, o foco não é uma simples oposição maniqueísta, mas mostrar a inter-relação entre os 3 níveis midiáticos (claro, blogs nunca serão massivos). Além disso, busco demonstrar que já não se pode mais classificar um meio necessariamente como exemplar derradeiro de um ou outro nível midiático. É preciso estudar as interações e interesses presentes no processo. Finalmente, tentei questionar se os 3 níveis são excludentes. Entendo que não, e que existe além de uma competição, também uma simbiose. Ou seja, a micromídia se alimenta da mídia de nicho e de massa, assim como as retroalimenta.

Este trabalho precisava, em pouco mais de 35 mil caracteres, a) questionar a oposição entre broadcasting e narrocasting, b) descrever a tipologia de Thornton, c) propor uma análise das condições de interação (além das de produção e recepção) a partir de Charaudeau, d) demonstrar que blogs podem funcionar tanto como mídia de nicho e micromídia digital, d) definir encadeamento midiático, e) tratar o problema empiricamente e ainda f) propor conclusões e estudos futuros. De fato, é muita coisa. Mas trata-se de um projeto de pesquisa em seu primeiro estágio de resultados.

Estamos iniciando um estudo em blogs do nível micromidiático para averiguar como a mídia de massa e de nicho lá aparecem. Em seguida, buscaremos ampliar o estudo do encadeamento midiático. Mas, vale ressaltar: o estudo manterá a crítica sobre a visão de que os níveis são mutuamente excludentes (existe, sim, uma interdependência).

Neste primeiro estudo, busquei ouvir os blogueiros. Não apenas observar suas interações e objetivos, mas também averiguar onde buscam suas informações. Este é um primeiro e necessário passo. Muitos outros ainda virão.

Já fica aqui o convite público para voltarmos a escrever juntos. Que tal somarmos teus questionamentos a esta pesquisa. Vai ser um prazer retomarmos nosso trabalho conjunto (agora de forma interinstitucional).

14 04 2008
Träsel

Minha vida aos poucos está entrando de novo nos eixos o suficiente para poder fazer pesquisa. Vou ver se passo uma tarde dessas na Fabico para bater um papo. Está começando a me dar de novo aquela coceira de pesquisador.

20 01 2009
Pessoas conectadas podem mais! | Vivoblog

[...] Ainda assistimos de pertinho à palestra do Alex Primo, professor da Pós-Graduação em Comunicação e Informação da UFRGS – super esclarecedora e relevante! Ele falou sobre a inserção dos blogs no mundo midiático. E também defendeu que, pela primeira vez na história veículos de comunicação, os produtores independentes podem trabalhar como qualquer outro profissional, com as mesmas condições tecnológicas. Basta um computador, uma conexão e disposição para criar! Ah, indicamos muito o artigo do professor, que pode ser baixado aqui. [...]

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