Crescem os blogs privados

24 04 2008

Diário com cadeado Nos primeiros anos dos blogs, utilizou-se o diário íntimo como metáfora explicativa para esse novo fenômeno na Web. Essa comparação logo foi criticada, tendo em vista que diários são privados e blogs já nasceram públicos. Ou seja, a escrita de diários íntimos e blogs possuem objetivos distintos. Por outro lado, hoje observamos um crescimento de blogs privados, protegidos por senhas ou escondidos dentro de intranets organizacionais.

É muito difícil encontrar estatísticas sobre o número de blogs privados. Esta dificuldade é também relatada por Scoble e Israel no livro Naked Conversations. Esses autores, no entanto, entrevistaram Anil Dash, vice-presidente da Six Apart, que produz o blog/programa Movable Type. Segundo ela, em 2005 32% clientes da empresa já mantinham blogs privados. Esse número teria sido absurdamente ampliado nos últimos 2 anos. É interessante observar que o Blogger e o WordPress.com só incluíram o serviço de blogs privados em 2006. Ou seja, trata-se de fenômeno mais recente na Web, comparando com a o tempo de existência dos blogs.

Blogs privadosMas por que abrir um blog, para logo em seguida fechá-lo para o acesso público? Seria apenas um retorno potencializado da escrita de diários pessoais?

Eu confesso que tenho dificuldades em acreditar que hoje os blogs privados aproximam-se de quase metade da blogosfera, tendo em vista a quantidade gigantesca de blogs públicos. Na falta de estudos mais detalhados, tampouco sabemos quais os gêneros mais dominantes nesta blogosfera “obscura”. Mas o que sabemos é que o potencial da interface dos blogs vem sendo reconhecido pelas organizações como uma importante forma de comunicação interna. Equipes de trabalho podem utilizar os blogs para tornar o conhecimento tácito de uma empresa em conhecimento explítico. Esses blogs/texto servem também para a rápida atualização de novos membros no grupo, que rapidamente tomam ciência dos avanços e decisões no projeto.

Blogs privados também são utilizados em ambientes de educação a distância para o registro dos avanços dos educandos, para a condução de trabalhos em grupo e, claro, para a interação entre os participantes dos cursos. Grupos de pesquisa podem fazer uso privado de blogs para o desenvolvimento de projetos científicos e escrita de artigos. Enquanto o artigo não é finalizado, o grupo pode preferir manter em sigilo os dados coletados até então.

Blogs/programa podem servir de interface para a criação de textos literários, sem que se precise carregar o arquivo consigo durante viagens. É o que fez Alex Castro, do blog Liberal Libertário Libertino. Para escrever seu romance Empregadas & Escravos, ele abriu um blog privado onde acaba de terminar o primeiro episódio da história: Cães. O autor distribui convites para os interessados em ler e comentar o texto.

Outro uso interessante é desenvolver um blog apenas para amigos ou família. Dia desses, ouvi uma professora relatar que abriu um blog privado para interagir com seu marido enquanto permanecia fora do país.

É, os blogs continuam desafiando as definições e metáforas que tentam reduzi-los a este ou aquele gênero específico.





Twitter e a paranóia

11 04 2008

Sexta-feira, dia de blogagem “light”. É justamente esse espírito que inspira o retorno do cartum “Blog do Maicon”:

Blog do Maicon

Este cartum foi inspirado por este tweet do excelente autor de webjornalismo participativo Dan Gillmor.





Twitter e os afetos

8 04 2008

Twitter iove##GrEkK0o## pensou muito em como chegar na gatinha da turma ao lado. Navegando em seu blog, descobriu o user dela no Twitter. Logo pensou em escrever: “140 caracteres é muito pouco para dizer o quanto te adoro”. Mas achou meio piegas… ficar assim se declarando. Preferiu dar uma espiada na página dela no Twitter. Navegando em interações alheias, achou esta mensagem de uma tal de Natinha: “Querida, nada vai acabar com nosso amor”. Sem pensar muito, ##GrEkK0o## enviou um tweet privado : “140 caracteres não são suficientes para medir o buraco em meu coração”.





Cuidado com a TinyURL no Twitter

7 04 2008

O serviço TinyURL é hoje um dos serviços mais populares da Web. Como as mensagens no Twitter não podem exceder 140 caracteres, é inviável sugerir muitos links em virtude de sua grande extensão. O link deste post que você está lendo contém 65 caracteres. Ao visitar o site do TinyURL, consegui criar um atalho com apenas 25 caracteres: http://tinyurl.com/45tsak. A idéia deste serviço é tão boa que já vem sendo copiada por sites como micURL.

Exemplo de TinyURL

Como costumamos receber tantos links interessantes no formato TinyURL de pessoas que seguimos no Twitter, acabamos associando uma boa imagem a esse tipo de apontador. Por outro lado, os spammers e crackers já se deram conta disso. Como você já deve saber, uma das maneiras de coletar informações sigilosas dos internautas é enviar e-mails falsos com links que levam os desavisados a sites de “phishing”. Estas páginas se parecem com os sites reais, mas servem apenas para coletar users, senhas e outros dados pessoais. Pois tenho recebido o seguinte e-mail falso:

TinyURL escondendo um site de phishing

Observe que meu programa para leitura de e-mails revela o endereço associado ao link. Uma maneira fácil de identificar se o site-destino é falso é observar para onde a URL aponta. Como mostra a imagem, a TinyURL esconde o endereço original. Claro, o Ministério da Fazenda não utilizaria a TinyURL. Mas cuidado, não vá ser pego de surpresa.

Daqui a pouco vão aparecer TinyURLs maldosas também no Twitter. Não adianta dizer que você só assina Twitters de amigos e pessoas confiáveis. Em breve um deles vai cair em um site de phishing do próprio Twitter. Assim que ele informar user e senha, um robô começará a lhe enviar mensagens como se fossem de autoria de seu amigo. Você já deve ter visto esse filme no orkut, né?

PS: o site do TinyURL não oferece um mecanismo de denúncia de URLs “maldosas”.





“O Twitter vai terminar de matar o jornalismo”. Será?

3 04 2008

Twitter logoFoi mais ou menos isso que escutei no episódio 138 do podcast TWIT (This Week in Tech). Durante o programa, Steve Gillmor disse que o Twitter é hoje uma de suas principais fontes de informação (veja mais sobre diferentes usos do Twitter aqui). A partir disso, o debate prosseguiu sobre o possível fim do jornal impresso e até mesmo do jornalismo como o conhecemos hoje. Leo Laporte, âncora do podcast, citou um recente artigo da prestigiosa revista New Yorker sobre a vida e morte dos jornais americanos. O texto aponta que os jornais nos Estados Unidos vêm perdendo anunciantes, leitores e valor de mercado (o mesmo ocorre no Brasil). Para se ter uma idéia, as ações de importantes jornais caíram 42% nos últimos 3 anos. As ações da New York Times Company despencaram 54% desde 2004.

Este declínio vem sendo causado por novas tendências em circulação e propaganda, além, claro, da crescente força da internet. Eric Alterman, autor do texto na New Yorker, conclui que a internet está se transformando na principal fonte de notícias políticas para os leitores americanos. Isso já é realidade para os mais jovens e para aqueles com maior engajamento político, ele aponta. Por outro lado, a idade média de leitores de jornais americanos é de 55 anos.

Morte do jornalSe o jornal impresso de fato terminar, eu não sentirei saudades do papel pardo e poroso com imagens borradas e que sujam nossas mãos. Por outro lado, já confessei aqui que adoro ler o jornal de manhã na mesa do café ou lê-lo no fim-de-semana deitado na rede. Nestes momentos, o que menos quero é estar na frente de um notebook. Torço para que de fato o tão esperado papel digital seja logo desenvolvido, pois ainda gosto muito da interface das grandes páginas de jornais. Elas permitem uma visão panorâmica que os sites e monitores não podem oferecer. Gosto também de ir “escaneando” página por página, caderno por caderno, descobrindo notícias que eu não leria ou não perceberia na versão online de um jornal.

Esse processo que acabo de relatar possivelmente não ocorre em seu Twitter. Se você usa esse serviço, você deve “seguir” (que funciona como um processo de assinatura de informações) pessoas com gostos muito semelhantes aos seus. Encadeamento midiáticoSendo assim, você pode manter-se muito informado sobre assuntos cujo interesse é compartilhado naquele grupo de “twitteiros”. Essa leitura seletiva é ótima para uma ultra-especialização em determinados assuntos. Por outro lado, pode nos isolar de outros temas que, a princípio, não atrairiam nossa atenção.

Essa discussão não é nova. Ela apareceu junto com as primeiras reflexões sobre hipertexto digital e jornalismo online. As ferramentas de busca, o clique apenas em matérias de total interesse e a assinatura digital de informações (o RSS veio potencializar essa prática) acabariam nos afastando de outras notícias, causando assim um novo processo alienante.

Por outro lado, creio que o Twitter (assim como os blogs) é mais uma fonte de atualização em nosso “mix informacional”. Como os próprios debatedores do TWIT lembraram, esses dois meios citados abastecem-se de notícias da mídia tradicional. Creio que eles dão eco às matérias da mídia de massa e de nicho. E mais, os blogs permitem que elas sejam discutidas de forma dialógica, o que é bloqueado em jornais e tevês, por exemplo.

Como propus em meu último artigo, podemos hoje observar um “encadeamento midiático” entre os níveis de massa, de nicho e de micromídia. Se por um lado o Twitter e blogs (vistos aqui como micrimídia digital) potencializam a circulação de informações, as interações conversacionais nesses espaços virtuais têm também um importante papel político, na medida em que promovem uma reflexão sobre os temas difundidos na grande mídia, permitindo que as notícias não sejam apenas consumidas de forma a-crítica.

Mas o que seria dos blogs independentes e do próprio Twitter sem as estruturas jornalística institucionalizadas? Acredito que o jornalismo como um todo está se rearticulando. Está inclusive aprendendo com as práticas de webjornalismo participativo. Mas continuo acreditando que, para além de uma simples oposição entre isto e aquilo, precisamos adotar uma perspectiva sistêmica para analisar as atualizações do macro-sistema midiático em virtude das novas interações entre os sub-sistemas.

PS: Leia mais sobre a possível morte dos jornais nesta matéria do Guardian.