Fakeland é uma das redes de relacionamento que mais cresce hoje em número de participantes e que vem oferecendo os maiores índices de lucratividade. Mas de onde vem tamanho sucesso? Os empresários da d.Zire Inc. desenvolveram o projeto ao lerem sobre o crescimento de perfis fake em sites como orkut, Facebook e MySpace. Como investidores, perceberam que se existe tal padrão poder-se-ia lucrar com um serviço mais adeqüado a essa demanda. Por sua formação em psicologia, logo concluíram que um perfil ou avatar fake não é sinônimo de falsidade. E, conhecedores dos processos de consumo em rede da contemporaneidade, identificaram o potencial interesse de diversas indústrias por dados e perfis que poderiam ser coletados através da interação entre fakes.
A partir dessa avaliação, fundaram uma nova linha de atuação na Web 2.0, que chamaram de Desire Management. Esse pomposo nome se refere ao monitoramento da manifestação do desejo em uma rede de relacionamentos online dedicada a fakes, com fins de oferecimento de produtos e serviços segmentados. Para o delineamento estatístico de perfis padronizados seria preciso confrontar os dados coletados no site Fakeland com perfis da mesma pessoa em outro serviço. Para tanto, fizeram uma parceria com um grande portal da Internet. Para a criação de um avatar fake na rede 3D é preciso logar-se com o mesmo username daquele megaportal. Assim, as informações já reunidas anteriormente (como gênero, idade, entre outras), podem ser confrontadas com os detalhes da criação do avatar pela mesma pessoa. A partir desse contraste de dados, os empresários da d.Zire Inc. defendem que podem prospectar manifestações do desejo.
Quando um homem cria para si um avatar de uma morena de grandes seios, esse perfil fake pode ser comparado com seus dados originais. Os desenvolvedores do Fakeland trabalham com a idéia de que essa seria a mulher idealizada pelo interagente. Por outro lado, ao recriar seu avatar como um homem forte e careca, essa configuração também revela como ele vê o universo masculino. Ou seja, mesmo que o personagem seja uma criação ficcional, suas características baseiam-se em uma visão de mundo. “Não se pode sonhar com o que não se conhece”, afirmou um dos Analistas de Desejo da d.Zire Inc.
A empresa garante na licença de uso do serviço que nenhum nome ou e-mail será vendido para terceiros. Contudo, para que se possa interagir no site 3D é preciso aceitar que os perfis genéricos traçados nas configurações dos avatares possam ser utilizados pela d.Zire Inc. para a delimitação de quais propagandas serão mostradas no site e que as tendências identificadas nas redes sociais estabelecidas (desire trends) possam ser negociadas com outras empresas.
Como era de se esperar, as primeiras empresas interessadas em anunciar no Fakeland foram fabricantes de lingerie e sex shops. Porém, a indústria de moda, de cosméticos e de literatura de auto-ajuda foram as que identificaram o potencial de uso dos relatórios de desire trends. As empresas desses setores vêm agora criando novos produtos em virtude de uma precisa identificação dos padrões de desejo dos sujeitos pós-modernos.
Enquanto se debate em congressos a visão trivial sobre o desejo desses psicólogos americanos e as questões éticas envolvidas no contraste das informações fornecidas, Rupert Murdock e Microsoft brigam pela compra da d.Zire. Inc.
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Esta é uma ficção baseada em discussões promovidas pelo excelente trabalho de Fernanda Bruno, apresentado na Compós 2008. Em eleição dos 3 melhores textos do GT Cibercultura, ele foi premiado como o melhor do ano (aproveito para agradecer os votos que colocaram meu texto em segundo lugar!). Os trabalhos originais podem ser encontrados aqui:
Vale a pena também ler o trabalho “Unraveling the Taste Fabric of Social Networks“, de Hugo Liu, Pattie Maes, Glorianna Davenport, sempre citados por Henrique Antoun nos debates da Compós sobre vigilância e controle na internet.