Há alguns anos meu pai pediu que eu procurasse informações no Google sobre um conhecido seu. A primeira página que encontrei foi o relato de um processo que ele sofrera. A surpresa foi desagradável. Quem sabe o processo tenha sido injusto e o fulano tenha ganho a causa. Porém, o registro permanecia na Web.
Mesmo páginas que foram apagadas na Web podem permanecer registradas no grande arquivo da rede, o Internet Archive. Lá se pode encontrar, por exemplo, várias cópias do site do ZAZ (que depois foi comprado pelo Terra). Veja esta página do antigo portal de 12 de dezembro de 1998. E já que tanto se falou sobre o lançamento do Firefox 3 (leia minha resenha da nova interface), que tal visitar a página do Netscape de 20 de outubro de 1996?
Mas vale a pena ter tudo registrado, pronto para ser acessado a qualquer momento, por qualquer pessoa? Como bem lembra Iván Izquierdo, do Centro de Memória do Instituto de Pesquisas Biomédicas da PUC-RS, ”Somos também aquilo que decidimos esquecer”. Neste artigo, Izquierdo, Bevilaqua e Cammarota afirmam que:

“De fato, é necessário esquecer, ou pelo menos manter longe da evocação muitas memórias. Há muitas que nos perturbam: aquelas de medos, humilhações, maus momentos. Há outras que nos prejudicam (fobias) ou nos perseguem (estresse pós-traumático).”
Se muitas vezes preferimos deliberadamente esconder de nós mesmos certos fatos do passado, a possibilidade de poder encontrar na Web coisas que publicamos ou relatos de falas e fatos de outrora não necessariamente é uma maravilha tecnológica.
O tema é fecundo, pois a princípio louvamos a possibilidade de podermos delegar parte de nossa memória para as tecnologias digitais. Mas o que fazer se aquilo que soterramos no fundo do inconsciente é encontrado por algum internauta, contra a nossa vontade? Políticos que o digam!
Ainda bem que no Brasil ninguém é condenado por seu passado
E se você já viu o filme “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, não deixe de ler o texto que Maria Cristina Ferraz apresentou na última Compós. A pesquisadora traz uma excelente discussão filosófica sobre todas essas questões.


valeu pelas dicas do texto do Izquierdo (sou fã dos textos dele na modalidade divulgação científica) e da Ferraz! Memória é um tema que me atrai.
O Villiers de L’Isle-Adam fala sobre isso, nas palavras de seu Edison ficcional, quando propõe que teria nascido tardiamente, pois não estava lá para registrar para sempre as palavras de grandes como Aristóteles, Jesus, entre tantos outros.
Para Sfez esse é um dos fundamentos da utopia moderna da tecnologia, e nesse ponto, concordo muito com ele: esse registro total do verbo passado, exposto por L’Isle-Adam, reverbera de maneira muito material quando se vê uma estrutura de permanência da memória se formando em diversos fronts, não só o do ciberespaço.
Pedro, excelente comentário. Valeu!
Alessandra, realmente o Izquierdo é um grande pesquisador, um dos mais citados internacionalmente, que consegue ser absolutamente didático em seus textos de divulgação.
nossa o netscape em 96 era algo do outro mundo…