Manuel Pinto e o webjornalismo participativo: uma entrevista que uniu o Twitter, o presencial, o YouTube e o blog

24 11 2008

Eu estava acompanhando o 6o. SBPJor através da cobertura de Gabriela Zago e Laura Storch via Twitter. Como eu estava achando muito interessante a palestra de Manuel Pinto, da Universidade do Minho, decidi enviar uma pergunta (na verdade duas!) através do Twitter para ser lida pela Laura durante a sessão de perguntas. Seria muito interessante que isso pudesse ter acontecido, pois certamente uma boa parte (a maioria?) da platéia não conhecia o que é Twitter.

Infelizmente, a sessão foi muito disputada e a Laura não pôde ser ouvida. Insatisfeitas, as duas twitteiras decidiram interpelar o Manuel logo após o fim da mesa. Armadas com a câmera e microfone de um Macbook, elas gravaram a seguinte mini-entrevista (nada mais pertinente ao contexto dos micro-blogs e das micromídias!):

Além da excelente resposta do amigo Manuel, a experiência foi muito interessante pelo encadeamento entre o presencial, o Twitter, o YouTube e o blog, mediado por aparatos móveis e conexões WiFi.

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PS: Obrigado Laura e Gabriela pela intermediação e pela excelente cobertura.





Encadeamento midiático na polêmica sobre a foto dos índios isolados na Amazônia

20 11 2008

Na semana passada, estive palestrando no I Colóquio em Imagem e Sociabilidade, organizado pelo GRIS na UFMG. Durante o evento, assisti ao trabalho de Débora Gabrich, no qual ela faz um interessante estudo sobre a polêmica internacional em torno da foto de índios isolados na Amazônia. Para essa discussão, ela utilizou o conceito de “encadeamento midiático”, com o qual venho trabalhando. Em virtude da proximidade de seu artigo com os temas que vêm sendo abordados neste blog, sugeri que ela fizesse um resumo de seu trabalho para discutirmos aqui. Vejam abaixo o resultado.

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Encadeamento midiático dos índios isolados

Sim, concordo com o conceito de Primo: há encadeamentos midiáticos entre tipos de mídia de massa, nichos e micromídias, nos quais são percebidos alterações de valor.

A primeira foto dos índios isolados na internet foi divulgada pelo blogueiro Altino Machado, de Rio Branco-Acre e na revista Terra Magazine, em 23 de maio de 2008. Altino recebeu do sertanista da Funai José Carlos dos Reis Meirelles Júnior e quis sensibilizar a opinião pública contra madeireiros peruanos que prejudicam as tribos.

Em dois dias, o encadeamento se alastrou na blogosfera: blog português Tupiniquim, blog do Edvaldo, deputado do Acre, blog da Glória Peres e outros. No circuito transnacional: Reuters e Global Voices em inglês, russo e francês em 24 horas.

Uma semana após, a ‘velha mídia’ Folha de São Paulo ilustrou a manchete com a ‘velha imagem’.

A divulgação causou reação imediata: o governo do Acre criou novos postos de guarda para proteger os índios dos madeireiros peruanos.


A falácia da novidade: contra-encadeamento

Os indígenas amazônicos interagem com a civilização desde 1800. Quem não sabe, quando lê “índio isolado”, tem impressão que é ‘novidade’. Um mês após a primeira divulgação, circulou na mídia internacional que a imagem era fraude. Isso porque o jornalista Gabriel Elizondo, correspondente da Al Jazeera no Brasil entrevistou o sertanista Meirelles em Feijó-Acre e disse que os índios são ‘conhecidos’ desde 1910.

A partir daí, Peter Beaumont, jornalista especialista em Oriente Médio, do jornal inglês The Observer deduziu que não era uma “descoberta inédita” e concluiu ser uma farsa.

Começa outro encadeamento midiático, com valor alterado. Para a Radio Nederland: ‘Tudo não passou de uma fábula’ do governo brasileiro e das ONGs. Para o espanhol El Pais: “una historia bonita, pero un fraude”. As organizações WWF e Aidesep negaram as acusações em suas páginas oficiais.

O sertanista Meirelles divulgou nota e a Survival Internacional apresentou denúncia na Comissão de Controle da Imprensa do Reino Unido. Beaumont, que primeiro quis processar a ONG, pediu desculpas e admitiu ser a sua versão “imprecisa, enganadora e distorcida”. Porém, a reprodução da imagem com valores alterados foi usada por madeireiros contra as ONGs, em veículos da imprensa local no Peru.

 

Os diálogos transculturais

As migrações de valores são evidentes nos posicionamentos relativos dos nós do encadeamento, ou o que Braga (2008, p. 206) chama de thread: “três ou mais postings por duas ou mais pessoas orientadas para um único tópico”. São comentários deixados por leitores. No blog do Altino há 16 comentários. Dentre eles, dois evidenciam uma visão cultural contrária sobre a ‘gestão’ dos índios:

“Marystela Ricciardi disse…
Altino, (…) Maravilhosa a sensação de ter a certeza de que os índios estão lá na sua cultura original e sem intervenções de brancos para alterá-la.

Anônimo disse…
Posso estar errado, mas acho um pouco de egoísmo nosso manter esse povo longe do progresso somente para podermos ver como eles se mantém sem nosso avanço. O governo deveria ter um programa de adaptação digna ao mundo moderno.”

São conteúdos imbricados em torno de uma mesma questão, cognitivamente relacionados, sem as pessoas se conhecerem ou manterem conexão. Encadeamento midiático é isso, um fluxo de interpenetração e intertextualidade entre veículos, em diferentes níveis quanto a sua materialidade, equalizados pelo dispositivo das tecnologias digitais, reflexos das representações uns dos outros.

 





Parte 3/3 – A cobertura dos casos Isabella Nardoni e Madeleine McCann em jornais, blogs e no Twitter

18 11 2008

Nos últimos dois posts busquei relatar brevemente os dados da pesquisa que realizei sobre como se deu a cobertura e o debate dos casos Isabella Nardoni e Madeleine McCann  nos jornais, blogs e no Twitter. Na última parte desta série, quero apresentar algumas conclusões gerais (se preferir, leia meu artigo completo sobre a pesquisa).

Durante os 16 dias que acompanhamos matérias, cartas de leitores, posts e tweets que mencionavam os casos, foi possível identificar o fenômeno que chamo de “encadeamento midiático” (leia mais sobre isto neste artigo). Ou seja, observou-se uma intertextualidade entre os diferentes níveis midiáticos: mídia de massa, mídia de nicho e micromídia (e seu sub-tipo micromídia digital). Tanto os cidadãos comuns utilizaram seus posts para comentar o caso e analisar a cobertura da grande mídia, quanto estas instituições se referiram em seus jornais aos blogs e Twitter, como também se aproveitaram destes meios digitais para divulgar matérias e links para suas páginas na Web.

Quanto ao tempo, observou-se que a blogosfera reage com grande velocidade aos fatos noticiados na mídia. Como se pôde constar nos gráficos gerados pelo Technorati, assim que o caso Isabella Nardoni chegou aos veículos jornalísticos, os blogs passaram a falar ativamente sobre a menina. Se antes não se verificava a ocorrência de seu nome, assim que se noticiou o fato, o Technorati e Blogpulse apontaram picos de postagem sobre ela.

Por outro lado, o caso Madeleine, de repercussão internacional, vinha sendo pouco coberto na mídia tradicional, em virtude da ausência de novos fatos. Apesar disso, e mesmo antes do aniversário de um ano do desaparecimento da inglesa, blogs e Twitter permaneciam falando do caso. Isto é, o timing na blogosfera e em micro-blogs se diferencia daquele da mídia tradicional. Em virtude do constrangimento de espaço e tempo em rádios, TVs, jornais e revistas, só o que é mais atual e cumpre os critérios de noticiabilidade é veiculado nos veículos jornalísticos. Mesmo instituições midiáticas do mundo inteiro usaram o Twitter para tratar do caso Madeleine em dias que jornais e TVs não abordavam o tema.

Durante os 16 dias da análise dos 3 jornais da amostra, observou-se outros casos explícitos de encadeamento midiático. Veja abaixo apenas alguns deles:

  • O caderno Donna de Zero Hora, em uma matéria sobre homens na cozinha (27/04), citou blogs do nível micromidiático dedicados à gastronomia. 
  • O mesmo jornal reproduz trechos do blog da cantora Maria Rita (do nível de nicho) sobre sua turnê em Porto Alegre (6/05). 
  • A Folha de São Paulo fez uma nota sobre a resposta da pré-candidata Hillary Clinton à acusação de blogs políticos de que teria cometido uma “gafe racista” (9/05). 
  • Em uma matéria sobre o dossiê da gestão Fernando Henrique, a Folha relatou que cópias de um post do blog de José Dirceu foram distribuídas para a imprensa durante um evento. 
  • Sobre o caso Isabella, O Sul publica a seguinte matéria de página inteira (28/05): “Caso Isabella vira ‘febre’ na Internet. Comoção se reproduz virtualmente, e debate sobre o crime toma conta do Orkut, de blogs e portais de notícias”.

Enfim, o interesse que motivou essa pesquisa foi justamente confrontar a polarização que muitos fazem entre a micromídia digital e as mídias de massa e de nicho. Além do encadeamento midiático, foi possível demonstrar empiricamente que blogs e Twitter não são apenas produções espontâneas de pessoas comuns. Como se viu, as próprias instituições midiáticas tradicionais vêm utilizando tais meios digitais para a divulgação de notícias e atração de novos leitores (e, portanto, audiências para seus anúncios). Por outro lado, esse mesmo público se expressa e interage na blogosfera e em micro-blogs debatendo as notícias lidas. Além disso, desempenham uma função de watchdog da grande mídia, avaliando e criticando as coberturas sensacionalistas.

Para além de uma simples polarização entre broadcasting e narrowcasting, a estrutura midiática contemporânea complexificou-se, ampliando as vozes e intensificando a circulação e debate de informações.

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PS: Peço desculpas ao leitores pela demora que tomou a publicação desta terceira parte. Mas nas últimas 3 semanas estive viajando por 4 destinos e em diferentes eventos. :-O