
Nesta quarta parte do relato da pesquisa, eu termino de apresentar as tabelas com os dados sobre temas, formas composicionais e estilos mais frequentes em cada blog analisado. Mais uma vez, eles são aqui agrupados segundo a minha proposta de gêneros de blogs apresentada aqui.
O gênero Pessoal Auto-reflexivo refere-se a blogs individuais voltados para a manifestação de opiniões e reflexões pessoais sobre si, sobre os outros e sobre a vida cotidiana dos blogueiros. Tais manifestações (mesmo em blogs privados, com acesso apenas para um pequeno grupo) podem constituir o que Nardi, Schiano e Gumbrecht (2004) chamam de “pensar enquanto se escreve”. Posts neste gênero de blog podem tratar do trabalho do autor e de colegas desse contexto. Contudo, diferentemente dos blogs profissionais, tais atividades participam como mais um aspecto da vida do blogueiro e não como foco ou tema principal. É importante salientar que o gênero pessoal auto-reflexivo é certamente o mais referenciado, tanto na academia quanto na imprensa. Possivelmente, permanece sendo o mais comum na blogosfera em números absolutos. Contudo, como se vê, ele não é sinônimo de blog. Ou seja, trata-se apenas de um gênero entre tantos outros (como se busca aqui demonstrar), e não a própria definição do que seja blog.
A tabela abaixo exibe os dados dos 2 blogs encontrados neste gênero. Vale lembrar que as 3 últimas colunas mostram os dados mais frequentes no que toca a forma composicional, tema e estilo. Os resultados abaixo foram coletados de forma independente. Ou seja, eles não são interdependentes, podendo ou não ter ocorrido ao mesmo tempo em um mesmo post. A coluna “rank” mostra a colocação do blog no ranking utilizado pela pesquisa (ela foi omitida nas tabelas anteriores). A coluna “posts” mostra quantos textos foram publicados no mês avaliado.

É interessante observar que dos 50 blogs estudados apenas 2 são do gênero auto-reflexivo. Possivelmente em nossa pesquisa atual, que avalia blogs de baixa autoridade, um número bem maior de blogs se enquadrarão neste gênero. A amostra analisada nesta pesquisa, por ser composta por muitos probloggers, e por adotar diversas estratégias para o aumento das audiências, acaba por se afastar das práticas típicas do gênero pessoal auto-reflexivo.
O gênero Pessoal Reflexivo é também produzido individualmente. Neste gênero, o blogueiro comenta as informações que recebe, analisa criticamente as notícias da mídia e demonstra suas opiniões sobre produtos culturais (livros, filmes, músicas, exposições, etc.). Pode tratar-se de blog temático (voltado para resenhas críticas de filmes, por exemplo) ou de comentários generalistas. Enquanto no blog pessoal auto-reflexivo a reflexão do blogueiro volta-se principalmente “para dentro”, para a própria existência, o gênero pessoal reflexivo caracteriza-se pela ênfase nos comentários sobre as ações e produtos de outras pessoas e organizações ou sobre a atuação de governos, políticos, esportistas, etc. E, diferentemente dos blogs profissionais, quem fala aqui é o sujeito comum, não um especialista em determinada área. Ou seja, os posts não se baseiam em argumento de autoridade. Como a voz no blog não se apresenta como aquela de um expert (mesmo que o blogueiro o seja em determinado segmento), as opiniões não são formatadas estrategicamente, tendo em vista objetivos profissionais.
Em um blog coletivo de gênero Grupal Reflexivo um grupo manifesta suas avaliações críticas sobre temas de interesse que aproximam os participantes que o compõem. Nesta publicação grupal, um grupo de amigos pode escrever posts individuais manifestando a opinião particular de cada um (sobre o campeonato brasileiro, em um blog sobre futebol, por exemplo), sendo eles até mesmo contraditórios entre si. Por outro lado, os blogueiros podem reunir seus esforços para defender uma causa comum (como software livre ou ecologia). Em blogs de fãs de algum produto cultural, os interagentes podem cooperar no sentido de discutir paixões, debater preferências e publicar resenhas críticas sobre determinados produtos.
O gênero Organizacional Informativo serve para o registro de informações sobre o segmento de atuação da organização, sem que ela manifeste seu parecer sobre os fatos. Blogs privados podem ser utilizados para o armazenamento digital de lançamentos e ações da concorrência. Blogs coletivos de probloggers são considerados informativos quando basicamente sugerem links ou produzem clipping de textos e imagens produzidos por terceiros apenas com a finalidade de gerar tráfego para suas estratégias de monetização.
O último gênero identificado nesta pesquisa foi o Organizacional Reflexivo. É através deste blog coletivo que uma organização manifesta suas opiniões sobre os temas de seu interesse. Uma organização ativista, por exemplo, pode usar o blog como manifesto online, fazendo críticas e defendendo propostas. Por outro lado, probloggers podem utilizar este gênero de blog para a análise crítica ou inclusive para a sátira de fatos de um segmento.

Os outros gêneros de minha tipologia não foram identificados dentre os 50 blogs analisados. As definições desses gêneros podem ser encontradas aqui.
Como estamos no final do ano, deixarei os dados de correlações e os resultados sobre número de comentários para relatar no semestre que vem. Até lá, gostaria muito de ouvir os comentários de vocês para que a pesquisa possa ser aperfeiçoada. Esse debate também nos ajudará a compreender melhor a blogosfera lusófona.




Claro, mais de um estilo poderia estar presente em um mesmo post (como crítico, agressivo e escatológico). Os 3 avaliadores, contudo, foram instruídos a selecionar o estilo principal, aquele que mais caracterizava o post. Como se vê nos resultados acima, mais da metade dos posts mostram um distanciamento do blogueiro, que limita-se ao relato. Por outro lado, é preciso reconhecer que a grande maioria das sugestões de links e downloads, como também os posts de reprodução, foram categorizados no estilo relato. O segundo estilo mais comum é o “crítico”, mostrando justamente o perfil reflexivo da blogosfera, tão discutido em debates sobre o tema. Esse argumento pode ficar ainda mais forte ao lembrar-se que a forma composicional mais comum é a analítica (que além de “crítico” podem assumir os estilos “gozação”, “espirituoso”, entre outros).
É importante lembrar que os dados aqui relatados se referem à uma parte específica da blogosfera: a mais lida e mais referenciada. Como o ranking utilizado avaliava 
