A brasileira agredida não foi agredida. Hein?

20 02 2009

O caso da brasileira Paulo Oliveira, que alegou ter sido atacada por neonazistas na Suíca, movimenta a imprensa desde a semana passada. Não poderia ser diferente. Envolto em mistério e informações contraditórias, além das contra-acusações da polícia suíça, o caso tem todos os ingredientes para despertar a curiosidade da audiência.

No meio disso tudo, o G1 acabou ficando confuso. Veja a matéria abaixo. O texto, atualizado pela última vez ontem às 14h08, confunde tudo: “a brasileira agredida na Suíca” forjou “uma suposta agressão”. Logo, é correto referir-se a Paula como ”a brasileira agredida na Suíca”.

Uma agressão ao bom jornalismo?





A Associated Press vai processar este blog

11 02 2009

Depois de um bom período de férias (praia, descanso, palestra no Campus Party), este blog vai voltando lentamente ao seu ritmo.

Enquanto isso, ofereço aqui minha contribuição para que a Associated Press continue fazendo notícia. Pois não é que ela processou o desenhista-stakista-empresário Shepard Fairey por ter feito um cartaz inspirado em foto de sua propriedade? Impressionado com essa atitude, apresento abaixo o meu próprio mashup. Se a Associated Press, Andy Warhol e os próprios Obama e Fairey (!) quiserem me processar, por favor usem o formulário de contato deste blog.

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Ei, faça você também seu mashup, remix, sua cópia ou releitura, um plágio ou homenagem da imagem da Associated Press! Quem sabe ela para de querer virar notícia! Ou, ainda melhor, você vira notícia!

UPDATE: preciso reconhecer, minha imagem não se compara a essas que achei por aí (sigam os links):

 

http://planonove.blogspot.com/2008/12/obamis.html

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Manuel Pinto e o webjornalismo participativo: uma entrevista que uniu o Twitter, o presencial, o YouTube e o blog

24 11 2008

Eu estava acompanhando o 6o. SBPJor através da cobertura de Gabriela Zago e Laura Storch via Twitter. Como eu estava achando muito interessante a palestra de Manuel Pinto, da Universidade do Minho, decidi enviar uma pergunta (na verdade duas!) através do Twitter para ser lida pela Laura durante a sessão de perguntas. Seria muito interessante que isso pudesse ter acontecido, pois certamente uma boa parte (a maioria?) da platéia não conhecia o que é Twitter.

Infelizmente, a sessão foi muito disputada e a Laura não pôde ser ouvida. Insatisfeitas, as duas twitteiras decidiram interpelar o Manuel logo após o fim da mesa. Armadas com a câmera e microfone de um Macbook, elas gravaram a seguinte mini-entrevista (nada mais pertinente ao contexto dos micro-blogs e das micromídias!):

Além da excelente resposta do amigo Manuel, a experiência foi muito interessante pelo encadeamento entre o presencial, o Twitter, o YouTube e o blog, mediado por aparatos móveis e conexões WiFi.

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PS: Obrigado Laura e Gabriela pela intermediação e pela excelente cobertura.





Encadeamento midiático na polêmica sobre a foto dos índios isolados na Amazônia

20 11 2008

Na semana passada, estive palestrando no I Colóquio em Imagem e Sociabilidade, organizado pelo GRIS na UFMG. Durante o evento, assisti ao trabalho de Débora Gabrich, no qual ela faz um interessante estudo sobre a polêmica internacional em torno da foto de índios isolados na Amazônia. Para essa discussão, ela utilizou o conceito de “encadeamento midiático”, com o qual venho trabalhando. Em virtude da proximidade de seu artigo com os temas que vêm sendo abordados neste blog, sugeri que ela fizesse um resumo de seu trabalho para discutirmos aqui. Vejam abaixo o resultado.

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Encadeamento midiático dos índios isolados

Sim, concordo com o conceito de Primo: há encadeamentos midiáticos entre tipos de mídia de massa, nichos e micromídias, nos quais são percebidos alterações de valor.

A primeira foto dos índios isolados na internet foi divulgada pelo blogueiro Altino Machado, de Rio Branco-Acre e na revista Terra Magazine, em 23 de maio de 2008. Altino recebeu do sertanista da Funai José Carlos dos Reis Meirelles Júnior e quis sensibilizar a opinião pública contra madeireiros peruanos que prejudicam as tribos.

Em dois dias, o encadeamento se alastrou na blogosfera: blog português Tupiniquim, blog do Edvaldo, deputado do Acre, blog da Glória Peres e outros. No circuito transnacional: Reuters e Global Voices em inglês, russo e francês em 24 horas.

Uma semana após, a ‘velha mídia’ Folha de São Paulo ilustrou a manchete com a ‘velha imagem’.

A divulgação causou reação imediata: o governo do Acre criou novos postos de guarda para proteger os índios dos madeireiros peruanos.


A falácia da novidade: contra-encadeamento

Os indígenas amazônicos interagem com a civilização desde 1800. Quem não sabe, quando lê “índio isolado”, tem impressão que é ‘novidade’. Um mês após a primeira divulgação, circulou na mídia internacional que a imagem era fraude. Isso porque o jornalista Gabriel Elizondo, correspondente da Al Jazeera no Brasil entrevistou o sertanista Meirelles em Feijó-Acre e disse que os índios são ‘conhecidos’ desde 1910.

A partir daí, Peter Beaumont, jornalista especialista em Oriente Médio, do jornal inglês The Observer deduziu que não era uma “descoberta inédita” e concluiu ser uma farsa.

Começa outro encadeamento midiático, com valor alterado. Para a Radio Nederland: ‘Tudo não passou de uma fábula’ do governo brasileiro e das ONGs. Para o espanhol El Pais: “una historia bonita, pero un fraude”. As organizações WWF e Aidesep negaram as acusações em suas páginas oficiais.

O sertanista Meirelles divulgou nota e a Survival Internacional apresentou denúncia na Comissão de Controle da Imprensa do Reino Unido. Beaumont, que primeiro quis processar a ONG, pediu desculpas e admitiu ser a sua versão “imprecisa, enganadora e distorcida”. Porém, a reprodução da imagem com valores alterados foi usada por madeireiros contra as ONGs, em veículos da imprensa local no Peru.

 

Os diálogos transculturais

As migrações de valores são evidentes nos posicionamentos relativos dos nós do encadeamento, ou o que Braga (2008, p. 206) chama de thread: “três ou mais postings por duas ou mais pessoas orientadas para um único tópico”. São comentários deixados por leitores. No blog do Altino há 16 comentários. Dentre eles, dois evidenciam uma visão cultural contrária sobre a ‘gestão’ dos índios:

“Marystela Ricciardi disse…
Altino, (…) Maravilhosa a sensação de ter a certeza de que os índios estão lá na sua cultura original e sem intervenções de brancos para alterá-la.

Anônimo disse…
Posso estar errado, mas acho um pouco de egoísmo nosso manter esse povo longe do progresso somente para podermos ver como eles se mantém sem nosso avanço. O governo deveria ter um programa de adaptação digna ao mundo moderno.”

São conteúdos imbricados em torno de uma mesma questão, cognitivamente relacionados, sem as pessoas se conhecerem ou manterem conexão. Encadeamento midiático é isso, um fluxo de interpenetração e intertextualidade entre veículos, em diferentes níveis quanto a sua materialidade, equalizados pelo dispositivo das tecnologias digitais, reflexos das representações uns dos outros.

 





Parte 3/3 – A cobertura dos casos Isabella Nardoni e Madeleine McCann em jornais, blogs e no Twitter

18 11 2008

Nos últimos dois posts busquei relatar brevemente os dados da pesquisa que realizei sobre como se deu a cobertura e o debate dos casos Isabella Nardoni e Madeleine McCann  nos jornais, blogs e no Twitter. Na última parte desta série, quero apresentar algumas conclusões gerais (se preferir, leia meu artigo completo sobre a pesquisa).

Durante os 16 dias que acompanhamos matérias, cartas de leitores, posts e tweets que mencionavam os casos, foi possível identificar o fenômeno que chamo de “encadeamento midiático” (leia mais sobre isto neste artigo). Ou seja, observou-se uma intertextualidade entre os diferentes níveis midiáticos: mídia de massa, mídia de nicho e micromídia (e seu sub-tipo micromídia digital). Tanto os cidadãos comuns utilizaram seus posts para comentar o caso e analisar a cobertura da grande mídia, quanto estas instituições se referiram em seus jornais aos blogs e Twitter, como também se aproveitaram destes meios digitais para divulgar matérias e links para suas páginas na Web.

Quanto ao tempo, observou-se que a blogosfera reage com grande velocidade aos fatos noticiados na mídia. Como se pôde constar nos gráficos gerados pelo Technorati, assim que o caso Isabella Nardoni chegou aos veículos jornalísticos, os blogs passaram a falar ativamente sobre a menina. Se antes não se verificava a ocorrência de seu nome, assim que se noticiou o fato, o Technorati e Blogpulse apontaram picos de postagem sobre ela.

Por outro lado, o caso Madeleine, de repercussão internacional, vinha sendo pouco coberto na mídia tradicional, em virtude da ausência de novos fatos. Apesar disso, e mesmo antes do aniversário de um ano do desaparecimento da inglesa, blogs e Twitter permaneciam falando do caso. Isto é, o timing na blogosfera e em micro-blogs se diferencia daquele da mídia tradicional. Em virtude do constrangimento de espaço e tempo em rádios, TVs, jornais e revistas, só o que é mais atual e cumpre os critérios de noticiabilidade é veiculado nos veículos jornalísticos. Mesmo instituições midiáticas do mundo inteiro usaram o Twitter para tratar do caso Madeleine em dias que jornais e TVs não abordavam o tema.

Durante os 16 dias da análise dos 3 jornais da amostra, observou-se outros casos explícitos de encadeamento midiático. Veja abaixo apenas alguns deles:

  • O caderno Donna de Zero Hora, em uma matéria sobre homens na cozinha (27/04), citou blogs do nível micromidiático dedicados à gastronomia. 
  • O mesmo jornal reproduz trechos do blog da cantora Maria Rita (do nível de nicho) sobre sua turnê em Porto Alegre (6/05). 
  • A Folha de São Paulo fez uma nota sobre a resposta da pré-candidata Hillary Clinton à acusação de blogs políticos de que teria cometido uma “gafe racista” (9/05). 
  • Em uma matéria sobre o dossiê da gestão Fernando Henrique, a Folha relatou que cópias de um post do blog de José Dirceu foram distribuídas para a imprensa durante um evento. 
  • Sobre o caso Isabella, O Sul publica a seguinte matéria de página inteira (28/05): “Caso Isabella vira ‘febre’ na Internet. Comoção se reproduz virtualmente, e debate sobre o crime toma conta do Orkut, de blogs e portais de notícias”.

Enfim, o interesse que motivou essa pesquisa foi justamente confrontar a polarização que muitos fazem entre a micromídia digital e as mídias de massa e de nicho. Além do encadeamento midiático, foi possível demonstrar empiricamente que blogs e Twitter não são apenas produções espontâneas de pessoas comuns. Como se viu, as próprias instituições midiáticas tradicionais vêm utilizando tais meios digitais para a divulgação de notícias e atração de novos leitores (e, portanto, audiências para seus anúncios). Por outro lado, esse mesmo público se expressa e interage na blogosfera e em micro-blogs debatendo as notícias lidas. Além disso, desempenham uma função de watchdog da grande mídia, avaliando e criticando as coberturas sensacionalistas.

Para além de uma simples polarização entre broadcasting e narrowcasting, a estrutura midiática contemporânea complexificou-se, ampliando as vozes e intensificando a circulação e debate de informações.

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PS: Peço desculpas ao leitores pela demora que tomou a publicação desta terceira parte. Mas nas últimas 3 semanas estive viajando por 4 destinos e em diferentes eventos. :-O





Parte 2/3 – A cobertura dos casos Isabella Nardoni e Madeleine McCann em jornais, blogs e no Twitter

30 10 2008

Este segundo post sobre o encadeamento midiático entre blogs, Twitter e jornais dá prosseguimento à análise da cobertura e da discussão sobre os casos Isabella Nardoni e Madeleine McCann.

Conforme relatei antes, todos os textos sobre aquelas investigações publicados nos 3 jornais da amostra e no Twitter foram coletados entre 27 de abril a 12 de maio de 2008. Por outro lado, como o volume de textos na blogosfera era significativamente maior, não foi possível ler e classificar todos os posts disponíveis. Logo, utilizou-se o mecanismo de busca Technorati para a geração de gráficos do volume de publicações diárias sobre os casos. Em virtude de limitação da ferramenta de gráficos desse serviço, as imagens abaixo mostram um período maior do que os 16 dias antes analisados:

Para ampliar, clique na imagem

Para ampliar, clique na imagem

Os gráficos acima consideram apenas os posts que mencionavam os nomes completos de Isabella Nardoni e Madeleine McCann. Ou seja, sabe-se que o número de posts sobre os dois casos investigados é muito maior, pois muitos são aqueles que se referem às meninas apenas pelo primeiro nome ou por apelido. Mesmo assim, tal expediente foi necessário pois a filtragem de textos que tratavam de outras pessoas com os mesmos nomes não seria possível.

Como se vê, os mesmos picos observados nos gráficos do post anterior sobre as publicações no Twitter também estão presentes nos gráficos acima. O aniversário de desaparecimento da menina inglesa, a divulgação dos laudos que incriminavam o pai e a madrasta de Isabella e a entrevista da mãe desta última coincidem com um aumento significativo de postagens. Esses dados revelam que blogs e microblogs são muito responsivos à materiais jornalísticos. Esses espaços virtuais sediam um debate público continuado sobre os mais diversos temas. (Claro, deve-se reconhecer que uma importante parcela dos posts provinha de blogs jornalísticos.)

Pode-se observar que os posts sobre de Isabella Nardoni aparecem na blogosfera logo após a divulgação da notícia da morte da menina. Antes disso, não se observa nenhum post que mencione a menina. Por outro lado, diferentemente da grande mídia, a blogosfera permanecia tratando do caso Madeleine mesmo que não houvesse nenhuma notícia nova (no período anterior ao aniversário das investigações). Ou seja, os blogs oferecem mediação para que notícias não sejam esquecidas no dia seguinte ou que sejam simplesmente assimiladas sem maior crítica. Pelo contrário, no breve período investigado, e mais especificamente no Twitter (onde se fez uma categorização das mensagens), foi possível reconhecer uma reflexão pública contínua sobre os fatos noticiados, sobre violência contra crianças, como também um debate crítico sobre a exploração da mídia sobre os casos.

Veja a seguir um gráfico gerado pelo mecanismo Blogpulse que ilustra comparativamente os picos de publicação de posts que mencionavam os nomes completos das meninas.

No post de segunda-feira discutirei as principais conclusões desta investigação. Além disso, vou compartilhar o texto completo da pesquisa.





A cobertura dos casos Isabella Nardoni e Madeleine McCann em jornais, blogs e no Twitter – parte 1/3

29 10 2008

Existe um “encadeamento” entre blogs, microblogs (mais especificamente o Twitter) e jornalismo tradicional? Essa foi uma das questões que me levou a acompanhar a cobertura de dois casos que movimentaram a imprensa e a opinião pública no primeiro semestre deste ano.

Muito discutimos sobre a importância da blogosfera no debate e na circulação de notícias. Além disso, circulam também muitas hipóteses sobre como um meio com apenas 140 caracteres (os microblogs) podem participar da cobertura de fatos noticiosos e de sua discussão. Ao mesmo tempo, circulam ainda muitas idéias preconceituosas que desconfiam que blogs e o Twitter oferecem pouca ou nenhuma contribuição social. E mais, inclusive antogonizariam com o que se entende (ou se entendia) por jornalismo.

A partir desses elementos, parti para uma observação sistemática da circulação de notícias e discussões sobre dois casos de violência contra crianças que, na época do estudo, ocupavam as primeiras páginas dos jornais. Para tanto, busquei reunir todo o material sobre os casos Isabella Nardoni e Madeleine McCain que encontrei em 3 jornais brasileiros (Folha de São Paulo e os jornais gaúchos Zero Hora e O Sul), na blogosfera (via Technorati) e no Twitter (via Twitter Search, antes chamado de Summize). O período analisado foi de 27 de abril a 12 de maio de 2008. O 16o. dia foi incluído em virtude da entrevista da mãe de Isabella no Fantástico, no Dia das Mães.

Durante o intervalo mencionado, quantificou-se o número de matérias (no miolo e na capa) e o número de cartas de leitores presentes nos 3 jornais avaliados. Os resultados podem ser observados na tabela a seguir. Vale lembrar que a dimensão das matérias (em cm/col) não foram consideradas.

No mesmo período, foram encontrados 440 tweets sobre o caso Isabella e 188 sobre o caso Madeleine (que completava naquele momento um ano de investigações). Cada uma dessas mensagens foi lida e classificada. Buscou-se avaliar se elas citavam organizações midiáticas tradicionais ou se eram de autoria dessas mesmas instituições (visando identificar o encadeamento midiático), se traziam opiniões sobre os casos, ou se faziam piada (humor negro) sobre as notícias. Tweets de outros tipos foram aglutinados na categoria “outros”. Como se verá no gráfico sobre o caso Madeleine, 4% das mensagens não puderam ser avaliadas em virtude do idioma.

No primeiro caso, foram encontrados 145 links para outros sites. Dentre as mensagens que citavam os meios massivos, 134 criticavam a cobertura da mídia. Ao investigar-se quais hashtags foram utilizadas para organizar a discussão sobre o caso, as seguintes foram encontradas: #isabella (9); #casoisabella (15); #isabellanardoni (5); #nardoni (1).

Já o caso Madeleine movimentou 178 tweets. Como se vê na imagem seguinte, a maior parte das mensagens (70%) foi enviada pelas próprias organizações midiáticas, trazendo links para as matérias em seus sites jornalísticos. Dentre os tweets que mencionavam os meios de comunicação de massa, apenas 4 faziam críticas à cobertura midiática. No total, foram registrados 148 links em tweets para outros sites na Web. Apenas uma hashtag foi encontrada: #madeleine

A seguir, veja a ilustração da quantidade de tweets nos dias observados. Os picos no gráfico indicam discussões sobre o primeiro aniversário do desaparecimento de Madeleine, a entrevista da mãe de Isabella no Fantástico e a divulgação dos laudos deste caso.

Em um próximo post eu apresentarei os resultados sobre a cobertura dos casos na blogosfera e darei continuidade à discussão dos dados desta pesquisa.

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PS: Agradeço especialmente a Ricardo Golbspan pela dedicada participação nesta pesquisa





A defesa do diploma de jornalista não é tão importante…

8 10 2008

 

…quanto a discussão sobre a formação universitária em jornalismo. Mas o que se esconde por trás desse título provocativo?

Você já deve ter visto o selo aí ao lado em vários blogs e sites. Na verdade, essa campanha nacional da Fenaj tem desdobramentos em diversas mídias. Se você ainda não a conhece, dê antes uma rápida olhada neste vídeo:

Além da ameaça de desregulamentação do Jornalismo, muitos ainda se preocupam com o avanço da blogosfera. Exemplo disso é a patética capa da revista Imprensa deste mês que decreta que “blogueiro não é jornalista”. O Noblat, em recente palestra em Porto Alegre, ironizou a capa: “Eu sou jornalista e sou blogueiro”. Mas, não parou por aí. Defendeu que muitas pessoas na blogosfera, que não são jornalistas, fazem bom jornalismo. ”Os amiguinhos não gostam que eu diga isso”, provocou.

Há muitos anos dizia-se que a liberdade de expressão existia apenas para os donos de jornais. Temo que alguns queiram hoje adaptar a frase para: “a liberdade de expressão deve existir apenas para os jornalistas”. Essa certamente não é a defesa da maior parte dos profissionais em jornalismo. Mas com certeza frequenta o imaginário de muitos radicais.

Para falar a verdade, essa discussão extremada entre panfletários (“blogs são sempre melhores que a mídia de massa”) e apocalípticos (“a blogosfera é a lixolândia”) já cansou faz tempo, não é?

É mais do que legítimo que uma categoria defenda seus interesses. Por outro lado, discordo de algumas peças alarmistas da campanha da Fenaj que aponta que a desregulamentação é uma ameaça à democracia. Exagero retórico.

No meio do fogo cruzado, contudo, não tenho visto um interesse maior em avaliar a própria formação universitária em jornalismo no Brasil. Essa discussão sim é mais urgente e necessária. De que adianta defender um diploma se ele pouco atesta? Prefiro um texto bem escrito, investigativo e opiniativo de alguém com outra formação do que outro de um recém formatado (o erro de digitação é proposital) acrítico. Parece-me que hoje abundam “técnicos” em jornalismo, que obedecem calados às imposições das grandes instituições midiáticas. Por outro lado, pouco ousam e se acomodam, simplesmente codificando a informação na técnica do texto jornalístico. Jornalismo era mais do que isso…

Em tempo, alguém poderia defender que do ponto de vista meramente industrial (o ciclo produtivo da finalização e circulação dos produtos jornalísticos), as empresas massivas alcançaram excelência. Mas podemos dizer o mesmo do jornalismo em si?

Se você está arrepiado com estas provocações, calma! Quero defender a formação universitária de qualidade. Mas não concordo que o diploma possa ser defendido em si mesmo, de forma essencializada. Não creio que a simples postura sindicalista ou corporativista seja suficiente. 

Acho interessante que na área da propaganda não existe exigência de diploma. Mesmo assim, as agências (pelo menos em Porto Alegre) preferem aqueles com formação universitária. É nesse sentido que não fico apavorado com proposta do ministro da educação Fernando Haddad.

Sim, é preciso avaliar a formação dos jornalistas no país e reconhecer que a palavra não pode ser autorizada apenas àqueles sindicalizados. O debate certamente é muito mais complexo do que mostro aqui. Mas que ele seja aprofundado então. Que não se limite à palavras de ordem e paradigmas antigos.





“O Twitter vai terminar de matar o jornalismo”. Será?

3 04 2008

Twitter logoFoi mais ou menos isso que escutei no episódio 138 do podcast TWIT (This Week in Tech). Durante o programa, Steve Gillmor disse que o Twitter é hoje uma de suas principais fontes de informação (veja mais sobre diferentes usos do Twitter aqui). A partir disso, o debate prosseguiu sobre o possível fim do jornal impresso e até mesmo do jornalismo como o conhecemos hoje. Leo Laporte, âncora do podcast, citou um recente artigo da prestigiosa revista New Yorker sobre a vida e morte dos jornais americanos. O texto aponta que os jornais nos Estados Unidos vêm perdendo anunciantes, leitores e valor de mercado (o mesmo ocorre no Brasil). Para se ter uma idéia, as ações de importantes jornais caíram 42% nos últimos 3 anos. As ações da New York Times Company despencaram 54% desde 2004.

Este declínio vem sendo causado por novas tendências em circulação e propaganda, além, claro, da crescente força da internet. Eric Alterman, autor do texto na New Yorker, conclui que a internet está se transformando na principal fonte de notícias políticas para os leitores americanos. Isso já é realidade para os mais jovens e para aqueles com maior engajamento político, ele aponta. Por outro lado, a idade média de leitores de jornais americanos é de 55 anos.

Morte do jornalSe o jornal impresso de fato terminar, eu não sentirei saudades do papel pardo e poroso com imagens borradas e que sujam nossas mãos. Por outro lado, já confessei aqui que adoro ler o jornal de manhã na mesa do café ou lê-lo no fim-de-semana deitado na rede. Nestes momentos, o que menos quero é estar na frente de um notebook. Torço para que de fato o tão esperado papel digital seja logo desenvolvido, pois ainda gosto muito da interface das grandes páginas de jornais. Elas permitem uma visão panorâmica que os sites e monitores não podem oferecer. Gosto também de ir “escaneando” página por página, caderno por caderno, descobrindo notícias que eu não leria ou não perceberia na versão online de um jornal.

Esse processo que acabo de relatar possivelmente não ocorre em seu Twitter. Se você usa esse serviço, você deve “seguir” (que funciona como um processo de assinatura de informações) pessoas com gostos muito semelhantes aos seus. Encadeamento midiáticoSendo assim, você pode manter-se muito informado sobre assuntos cujo interesse é compartilhado naquele grupo de “twitteiros”. Essa leitura seletiva é ótima para uma ultra-especialização em determinados assuntos. Por outro lado, pode nos isolar de outros temas que, a princípio, não atrairiam nossa atenção.

Essa discussão não é nova. Ela apareceu junto com as primeiras reflexões sobre hipertexto digital e jornalismo online. As ferramentas de busca, o clique apenas em matérias de total interesse e a assinatura digital de informações (o RSS veio potencializar essa prática) acabariam nos afastando de outras notícias, causando assim um novo processo alienante.

Por outro lado, creio que o Twitter (assim como os blogs) é mais uma fonte de atualização em nosso “mix informacional”. Como os próprios debatedores do TWIT lembraram, esses dois meios citados abastecem-se de notícias da mídia tradicional. Creio que eles dão eco às matérias da mídia de massa e de nicho. E mais, os blogs permitem que elas sejam discutidas de forma dialógica, o que é bloqueado em jornais e tevês, por exemplo.

Como propus em meu último artigo, podemos hoje observar um “encadeamento midiático” entre os níveis de massa, de nicho e de micromídia. Se por um lado o Twitter e blogs (vistos aqui como micrimídia digital) potencializam a circulação de informações, as interações conversacionais nesses espaços virtuais têm também um importante papel político, na medida em que promovem uma reflexão sobre os temas difundidos na grande mídia, permitindo que as notícias não sejam apenas consumidas de forma a-crítica.

Mas o que seria dos blogs independentes e do próprio Twitter sem as estruturas jornalística institucionalizadas? Acredito que o jornalismo como um todo está se rearticulando. Está inclusive aprendendo com as práticas de webjornalismo participativo. Mas continuo acreditando que, para além de uma simples oposição entre isto e aquilo, precisamos adotar uma perspectiva sistêmica para analisar as atualizações do macro-sistema midiático em virtude das novas interações entre os sub-sistemas.

PS: Leia mais sobre a possível morte dos jornais nesta matéria do Guardian.





Por que o webjornalismo participativo é relevante para o próprio pensar sobre jornalismo?

5 03 2008

o embate! Ontem participei da banca de mestrado de Cristiane Lindemann. Sua dissertação, “O perfil da notícia no webjornalismo participativo: uma análise do canal vc repórter, do Portal Terra”, foi orientada no PPGCOM/UFRGS pela professora Virgínia Fonseca. Durante a banca, juntamente com as professoras Marcia Benetti (UFRGS) e Christa Berger (Unisinos), pudemos rediscutir uma série de grandes temas do webjornalismo participativo.

Fiquei ainda mais convencido que trata-se de um conjunto de experiências, por vezes tão radicais, que têm uma importância fundamental para a história do jornalismo, como também para a própria teorização da área. O embate polarizado que inspirou os primeiros debates veio demonstrar que era hora de se repensar muitos conceitos e teorias do jornalismo. A radicalidade dos argumentos, tanto das utopias panfletárias quanto das visões conservadoras e corporativistas, tiveram papel importante em sacudir as certezas que insistiam em se cristalizar definitivamente. Ora, nada como uma boa briga para excitar nossos neurônios e fazer o conhecimento avançar.

PokerDe um lado, os pioneiros do webjornalismo participativo insistiam que as senhas conceituais da tradição não eram suficientes para interpretar esse novo fenômeno. De outro, jornalistas profissionais e sindicatos denunciavam os perigos da publicação de informações distorcidas e apressadas por pessoas sem maiores compromissos com o factual. Os primeiros retrucaram com novos ataques às idéias de imparcialidade. Seus oponentes no debate, por sua vez, revidavam com críticas sobre a falta de preparo dos leigos envolvidos. Também foram jogados na mesa os interesses mercadológicos dos conglomerados midiáticos, enquanto outros pagavam para ver o que sobrava da defesa pela democratização da informação.

Claro, carreguei nas tintas na ilustração desse debate, com o fim de destacar alguns dos principais argumentos. Mas o que sobra dessa “briga”?

Passados esses primeiros anos, precisamos agora ver o que amadureceu, o que enfraqueceu, o que a sociedade e o jornalismo ganharam com os projetos participativos e que modas e discursos panfletários perderam força.

Sabemos que dar voz a qualquer a qualquer cidadão é fundamental para o processo político. Contudo, conforme disse minha colega Marcia durante a banca, participação não é necessariamente o mesmo que democracia. Essa interessante provocação estava baseada em um dos dados levantados pela dissertação de Cristiane. Ao avaliar as fontes relatadas no vc repórter, encontrou os seguintes dados:

  • fonte oficial – 73,33%
  • fonte independente – 11,85%
  • testemunhas – 11,11%
  • fonte oficiosa – 3,70%

Para Marcia, 73% de fontes oficiais não indicam um processo democratizante. De fato, o webjornalismo participativo pode justamente diferenciar-se e oferecer contribuição social ao ultrapassar a repetição das mesmas informações oficiais. Em outras palavras, a participação é necessária, claro, mas não suficiente.

Infelizmente, o Terra tem uma atuação primária e decepcionante no webjornalismo participativo. Trata-se apenas de uma inciativa de gerar tráfego adicional em suas páginas com custo baixíssimo. O que importa são os cliques em material publicitário. As fotografias e os textos dos colaboradores, por incrível que pareça, têm papel secundário. Para se ter uma idéia do descaso do Terra, eles se negaram a contribuir com a dissertação ontem defendida.

Que bom que o vc repórter não é a regra. Enquanto isso, Slashdot, Overmundo, Digg, OhmyNews e tantas outras iniciativas seguem aperfeiçoando seus sistemas colaborativos.

A nós, que nos dispomos a pensar criticamente os processos comunicacionais, cabe atualizar o que precisa ser atualizado na teoria, sem medos, preconceitos, nem posturas panfletárias.

Confesso que tenho muito interesse por esse desenvolvimento. Ele têm repercussão na ciência da comunicação e no fazer jornalístico. Mas, sobretudo, no impacto social e democratizante da comunicação. Pena que essa perspectiva andava meio “fora de moda” depois dos anos 80.