O grafo não é a rede

29 10 2007

A Análise de Redes Sociais (SNA) de vez em quando é chamada de um método sem uma teoria. Mesmo assim, ela vem entusiasmando nós pesquisadores da cibercultura por poder apresentar uma série de métricas e grafos (como o reproduzido abaixo) para o estudo de redes sociais, cujas estruturas são explicitadas na Web através de links.

Grafo

Por outro lado, o blog BubbleGeneration traz uma provocativa crítica e postula: “o grafo não é a rede”, em um claro trocadilho com a máxima “o mapa não é o território”, de Korzybski. Segundo este filósofo, a abstração de algo não é a coisa em si. Em outras palavras, é como se um artista fizesse uma escultura observando uma modelo e mais tarde defendesse que a escultura é a própria modelo (usei essa ilustração neste artigo sobre inteligência artificial).

Em um minúsculo post, o BubbleGeneration defende que o grafo é diferente da rede social, pois o primeiro é um estoque, enquanto o segundo é um fluxo.

De toda forma, entendo que a SNA pode oferecer dados quantitativos sobre a estrutura de uma grande (ou enorme!) rede social a partir do registro dos links e suas direções (ou seja, se um nó envia ou recebe um link, ou se trata-se de uma conexão recíproca) em um determinado momento. Contudo, as diferentes fórmulas que podem ser aplicadas a esse retrato não podem revelar a dinâmica social que extravasa a (ou se esconde na) mera fotografia da interconexão explícita entre os nós.

Ou seja, o problema do uso de grafos sociais emerge quando se passa a acreditar que eles são uma prova suficiente para a interpretação dos relacionamentos entre as pessoas. Essa postura pode perigosamente travestir o carcomido corpo estruturalista com nova e sensual roupagem!

Para ilustrar de forma lúdica o problema em se tirar conclusões definitivas sobre a dinâmica social sem conduzir-se uma observação qualitativa durante um certo período de tempo, responda as perguntas a seguir baseando-se na imagem abaixo:

Fam�lia Jones?

1 – A família Jones é formada pelo senhor Jones, senhora Jones e Johnny;
2 – Johnny está fazendo seu dever de casa enquanto assiste TV;
3 – A senhora Jones está tricotando um blusão;
4 – Eles têm um gato;
5 – Eles estão olhando um programa noturno de TV.

A imagem e essas perguntas (reproduzo apenas algumas delas aqui) foram publicadas em um livreto sobre comunicação em 1968. Apesar de alguns pressupostos daquele texto estarem desatualizados, esse exercício ainda é bastante interessante. Veja abaixo as respostas que o antigo livreto traz para as questões anteriores:

1- Você não sabe de fato se esta é a família Jones, nem tampouco se existem outros membros da família que não estão presentes;
2 – Você não tem como saber se Johnny está fazendo dever de casa ou não. Você sabe apenas que ele tem um livro diante de si;
3 – Você não pode ter certeza que trata-se da senhora Jones, nem o que ela está tricotando;
4 – Poderia ser um gato do vizinho “sentindo-se em casa”;
5 – Você não sabe se é noite ou não, apesar das luzes estarem ligadas. Pode ser meio-dia, mas as cortinas foram fechadas.

Isto não é um cachimbo

Enfim, creio que a SNA pode coletar e analisar grandes volumes de dados. Esse método e suas métricas podem oferecer importantes indícios sobre os relacionamentos mantidos em serviços na Web como blogs, redes de relacionamento, fóruns, etc. Por outro lado, é preciso conduzir em paralelo, ou em um momento seguinte, investigações qualititativas (como análise das conversações, entrevistas, etc.) para o estudo daquilo que os grafos estáticos não podem revelar… antes que as dinâmicas sociais sejam reduzidas à troca econômica de links. Caso contrário, o estudo quantitativo de laços, me perdoem o trocadilho infâme, vai apenas encontrar nós cegos.

to be continued… :-)
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Entrevista sobre o livro “Interação Mediada por Computador”

30 08 2007

Livro O programa Livro Aberto, produzido pela PUCRS, está veiculando nesta semana uma entrevista sobre meu livro Interação Mediada por Computador: comunicação, cibercultura, cognição, recém lançado pela Editora Sulina.

Meu colega Juremir Machado da Silva, como sempre, fez perguntas excelentes sobre a vida online.

Veja abaixo a primeira parte da entrevista.

Você pode ver as partes dois e três diretamente no site do YouTube.





Novas redes de relacionamento

29 08 2007

O caderno de informática do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, publicou hoje uma matéria sobre redes de relacionamento voltadas para o trabalho, como o Linkedin e o brasileiro Via6. Dei uma pequena entrevista para essa matéria, mas voltarei a esse tema em um próximo post.

Enquanto isso, gostaria de compartilhar com vocês alguns projetos que venho desenvolvendo na área de redes de relacionamento. As idéias são boas e bem fundamentadas, mas não tenho achado investidores. Vejam abaixo um resumo executivo desses projetos e seus respectivos logos no melhor estilo Web 2.0.

TerrorSpaceJustificativa: Todos sabemos que as organizações terroristas contemporâneas funcionam em rede. E é isso justamente que assusta: se antes podia-se localizar um grupo terrorista em uma determinada floresta, por exemplo, hoje seus membros dispersam-se por vários países mantendo a comunicação entre si. Como se vê, existe aí uma demanda ainda insatisfeita, um importante nicho a ser coberto por uma rede de relacionamentos online para a interconexão dos participantes da rede.

Problema: As fotos em cada perfil precisarão ser bem maiores, para acomodar o tamanho da barba dos participantes. Em virtude da maior dimensão das imagens, os arquivos ficarão mais pesados, prejudicando o tráfego das informações.

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MyTráficoInJustificativa: Diante de um imenso público de adolescentes que ingressaram em uma profissão muito cedo, este novo serviço de interação online de redes de tráfico buscará misturar características de diversão juvenil do MySpace com funcionalidades profissionais do LinkedIn.

Problema: Os perfis dos adolescentes inscritos no serviço rapidamente deixarão de ser atualizados, pois, segundo estudos de marketing, seus responsáveis logo migrarão para a rede dos céus.

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ÓdiosterJusticativa: Como o orkut oferece apenas uma interface para colecionar amigos, comunidades de interesse e ferramentas para julgar se uma pessoa é confiável (ícone de sorriso), legal (ícone do gelo) e sexy (ícone de coração), esta rede visa um novo nicho. Através dela você poderá reunir seus inimigos, disparar spam e vírus para todos ao mesmo tempo, julgá-los com ícones de facas, forcas e gotas de sangue.

Problema: a concorrência deslavada deste site fake: Arsebook.

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Exclu�dobookJustificativa: A web não é uma rede igualitária. A maior parte dos brasileiros não tem acesso ao ciberespaço. E, como se não bastasse, uma rede de relacionamentos para a elite abastada está para ser lançada: Diamond Lounge (dica da Teca). Diante de tanta exclusão digital, o Excluídobook aceitará apenas aquelas pessoas que nunca viram um computador pela frente.

Problema: Nossos pré-testes ainda não chegaram a uma conclusão sobre porque nossos beta-testers não gostaram da interface, o sistema de busca e os fóruns.

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Rede!Justificativa: Este serviço baiano, que leva este singelo título, serve para… nada. Afinal de contas, uma boa rede é para se descansar.

Problema: Levará muito tempo para ser produzida.

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E você, tem alguma sugestão para novas redes de relacionamento?





Uma viagem pela vida e por 8 blogs em meia-hora

23 08 2007

Como venho discutindo as interações na blogosfera, decidi fazer um pequeno passeio nos arredores do WordPress.com. Esse serviço oferece um recurso para se saltar de um blog a outro aleatoriamente. Essa volta está relatada abaixo na mesma ordem em que foi trilhada.

Eric no ZooEric Wong foi ao zoológico de Wichita com os amigos de Ai-Chan. Esse passeio foi tão divertido que rendeu muitas fotos e risadas. Já para Joe Buhler, turismo é coisa séria. Especialista em comércio eletrônico de pacotes turísticos, ele relata que, segundo uma pesquisa recente, os internautas têm dedicado mais tempo à busca e leitura de conteúdo na Web. Buhler percebe que esse dado aponta novas oportunidades para os sites dedicados a viagens. Baz não apenas busca conteúdo na rede, mas também escreve sobre o que mais gosta: música. Além de conversar sobre os melhores raps, Baz gosta de compartilhar clipes engraçados. Gilles07 é outro blogueiro que curte viagens. Ele nunca foi ao carnaval de Nova Orleans, mas recomenda que todo mundo vá. Enquanto isso, Bevin Chu esforça-se em traduzir e criticar matérias publicadas sobre a vida em Taipei. Já Mads Klinkby está mais ocupado em celebrar sua certificação na Microsoft. Agora, ele acumula os seguintes títulos: MCP, MCDBA, MCSD e MCTS. Esse punhado de letras, contudo, não faz o menor sentido para Mediocre Housewife. Ela, que sempre sonhou em casar e ter filhos, está realizada em dedicar-se a sua família. O marido está celebrando 32 anos, é fiel e muito engraçado. Seus filhos, que nasceram de partos difíceis, são lindos e carinhosos. Davor Prcovich, por sua vez, também adora computadores. Mas diferentemente de Klinkby, prefere usar Macs. Prcovich gosta de ajudar as pessoas a usarem melhor suas máquinas. Ele sugere que elas freqüentem fóruns em busca de soluções, mas lembra que devem ter paciência no aguardo das respostas.

Esse breve passeio por blogs sorteados ao acaso nos revela uma amostra da vida que atravessa a blogosfera. É ali que Eric, Gilles07 e seus amigos prolongam a alegria de estarem juntos, que Buhler e Klinkby falam sobre suas carreiras, que uma jovem celebra a decisão de dedicar-se à família e ri dessa opção. É também no virtual que Chu envolve-se politicamente na vida de Taipei e que Buhler lucra com a mobilidade geográfica.

Pois é nesse espaço tecnológico que os dados e afetos circulam, que valores sociais e monetários são trocados, que a economia e as tensões sociais são potencializadas. A blogosfera, no entanto, não é um espelho da vida. Ela é a própria vida. Não é a existência aqui que é lá refletida. Ora, é a mesma vida que escorre e cria liga nesses diferentes cenários.

Um internauta não fixa no blog o que pensa. É com ele que reflete sobre si, sobre os outros e sobre o mundo. Essa interação, claro, modifica a todos. Enfim, no blog lemos o mundo em voz alta. E mais, o blog é um espaço de escrita coletiva: de posts… de subjetividades.





Lurkers e senso de comunidade

13 08 2007

LurkerDiante de uma questão do Buarque que motivou um debate no post anterior, decidi discutir aqui o papel dos lurkers (os leitores de um blog que nunca se manifestam). Eles normalmente representam a grande maioria dos visitantes de um blog, quiçá quase a totalidade. Por outro lado, muitos pesquisadores vêem com maus olhos o comportamento desses internautas. Essa postura revela uma visão normativa de como deveriam se comportar os interagentes de um blog. Conforme a Marcia apontou, eu também visito muitos blogs, mas comento apenas quando tenho algo a dizer. Isso não quer dizer que estou “espionando” os outros! Vale lembrar que um blog é um espaço público.

Primeiramente, deve-se reconhecer a importância dos lurkers nas estatísticas do blog. Os números que encontro nas estatísticas, incluindo todos os internautas silenciosos, funcionam como uma motivação para que eu continue blogando. Além disso, eles também permitem que eu entenda melhor o que busca a minha audiência. Posso compreender que assuntos atraem mais visitas. A partir das estatísticas, cada blogueiro pode ir aperfeiçoando o foco de seu blog.

Todo blog costuma ter uma média de acessos diários. Isso demonstra que uma grande quantidade de lurkers freqüenta o blog com assiduidade. Por outro lado, quando um post atinge um grande pico de audiência, isso não quer dizer que esse significativo aumento garantirá o retorno desses novos lurkers. Esse pico pode ocorrer quando um post aparece nas primeiras páginas de resultados do Google. Foi o que aconteceu com o post que escrevi sobre a cobertura do acidente da TAM, que terminou o dia entre os 100 mais visitados do WordPress.com. Mesmo que algumas pessoas dessa leva súbita venham a se interessar pelo restante do blog, a grande maioria acaba lendo apenas o post encontrado naquele mecanismo de busca.

Sabemos que uma comunidade virtual pode emergir a partir das interações em um ou mais blogs. Contudo, podemos dizer que os lurkers que visitam um mesmo blog diariamente fazem parte da comunidade? Sua leitura silenciosa basta para que sejam considerados membros do grupo? Blanchard e Markus (2004) sugerem que a participação dos lurkers em uma comunidade virtual não pode apenas ser julgada a partir de sua expressão verbal em conversações públicas. Segundo eles, é preciso levar em conta o conceito de “senso de comunidade“, proposto por McMillan & Chavis em 1986. Essa visão psicológica sugere que tal percepção emerge a partir de:

a) sentimento de pertença - sentir-se parte de uma comunidade e idenficar-se com ela;

b) sentimento de influência – reconhecer a influência que exerce sobre a comunidade e que ela exerce sobre si ;

c) satisfação de necessidades – perceber que recebe atenção dos outros para as suas necessidades particulares, ao mesmo tempo que dá suporte às necessidades dos outros;

d) conexão emocional – sentimento de que um relacionamento é compartilhado entre os participantes.

Como nem todo agrupamento de pessoas constitui uma comunidade, esse conceito pode subsidiar investigações sociológicas. Por outro lado, é possível utilizar esse conceito para estudo de comunidades virtuais? Blanchard e Markus entendem que sim, mas lembram que as especificidades dos processos comunitários na rede precisam ser levadas em conta.

A partir de um estudo empírico de uma comunidade de interesses voltada para o debate esportivo, os autores identificaram três tipos de internautas: os líderes (que motivam as discussões), os participantes (ativos nas conversações, mas não exercem grande influência) e os lurkers. Durante as entrevistas realizadas com representantes desses 3 grupos, os lurkers afirmaram que reconheciam-se como parte de uma comunidade, apesar de não desenvolverem um relacionamento explícito com os outros participantes.

De fato, se um lurker retorna a um blog diariamente, é porque ele percebe a importância dos conteúdos lá publicados. Logo, a publicação certamente exerce uma influência sobre ele. Mas o que ele oferece ao grupo em retorno?

Em uma segunda pesquisa de Blanchard e Markus, a entrevista com lurkers apontou resultados diferentes. Então, lurkers podem ser apontados como membros de uma comunidade virtual? Para motivar o debate, sugiro outra questão paralela. Como paróquias são um exemplo corriqueiro de comunidades geograficamente localizadas, quando um padre refere-se a sua audiência como participantes da comunidade, ele está correto? Possivelmente, a maior parte das pessoas que freqüentam a igreja não interagem com padre e nem entre si. Essas pessoas seriam então os “lurkers” da paróquia!

O que você acha? Este convite se estende aos lurkers deste blog :-)